O auditório da Folha e do UOL, na manhã desta sexta-feira, foi palco de um confronto que expôs as fraturas do campo conservador e a ascensão de uma pauta identitária que até pouco tempo era monopólio da esquerda. Em vez do embate clássico entre estatismo e liberalismo, o que se viu foi uma disputa interna pela alma da direita paulista, com direito a críticas a 'homens tóxicos' e ataques diretos ao STF.
O evento, mediado pelos jornalistas da casa, reuniu candidatos ao Senado que tentam herdar a cadeira ocupada por José Serra. A surpresa ficou por conta do candidato do PSOL, que, em resposta a uma pergunta sobre segurança pública, desviou para o terreno do comportamento masculino: 'Precisamos falar sobre masculinidade tóxica, que é a raiz da violência urbana', disparou, sob olhares de reprovação de parte da plateia. A declaração, registrada pela transmissão ao vivo, viralizou nas redes sociais e gerou reações imediatas.
O contraponto veio do representante do PL, que rebateu com ironia: 'Enquanto isso, o PCC domina os presídios e o cidadão de bem é feito refém em casa'. A troca de farpas evidenciou o abismo entre a agenda identitária e a pauta de segurança que domina as pesquisas de opinião em São Paulo.
O debate, no entanto, não ficou restrito ao choque ideológico. O candidato do Novo, ex-secretário municipal, tentou pautar a discussão econômica, defendendo cortes de gastos e a reforma administrativa. Mas foi atropelado pelo tema que une todos os espectros: a atuação do STF. 'Não podemos ter um Judiciário que legisla e prende sem provas', afirmou o candidato do Podemos, em referência direta aos inquéritos das fake news e à conduta de ministros como Alexandre de Moraes.
A crítica ao STF, porém, gerou um racha no palco. Enquanto o candidato do PSDB adotou tom conciliador, defendendo 'diálogo entre os Poderes', os candidatos de direita e centro-direita endureceram o discurso. O representante do PL chegou a classificar a Corte de 'inimiga da liberdade de expressão', ecoando declarações do ex-presidente Jair Bolsonaro. A plateia, composta majoritariamente por jornalistas e formadores de opinião, dividiu-se em aplausos e vaias.
Para o eleitor paulista, o recado é claro: a eleição ao Senado deixou de ser uma disputa menor e se tornou um termômetro da polarização nacional. A segurança pública, que já foi a principal dor de cabeça do governo estadual, foi usada como trampolim para atacar o governo federal e o Judiciário.
Por que isso importa? Porque o Senado é a casa que sabatina ministros do STF e analisa projetos de lei que podem limitar o ativismo judicial. Uma bancada mais crítica à Corte pode mudar o equilíbrio de forças em Brasília. Além disso, a pauta identitária, antes restrita a nichos acadêmicos, agora chega ao debate eleitoral mainstream, o que pode reconfigurar as alianças da direita.
Na análise FORTIS, o debate evidenciou que a direita brasileira ainda não encontrou um discurso unificado. Enquanto parte do campo aposta na pauta de costumes e na guerra cultural, outra tenta surfar a onda liberal na economia. O risco é que, na tentativa de agradar a todos, os candidatos percam a oportunidade de apresentar soluções concretas para os problemas reais de São Paulo, como a crise na educação e o déficit habitacional.
A menção aos 'homens tóxicos' foi um aceno claro ao eleitorado de esquerda, mas pode ter efeito reverso. Pesquisas recentes indicam que o eleitor paulista, especialmente o da periferia, está mais preocupado com a violência policial e o tráfico do que com debates de gênero. O candidato do PSOL, ao insistir no tema, corre o risco de ser visto como desconectado da realidade.
O contraponto vem dos institutos de pesquisa: a pauta identitária tem crescido entre jovens de 16 a 24 anos, que representam um contingente significativo do eleitorado. Ignorar esse segmento pode ser um erro estratégico. Mas, para o liberal clássico, a resposta é clara: o Estado deve proteger direitos individuais, não ditar comportamentos. A 'masculinidade tóxica' é um conceito sociológico, não um crime tipificado.
O embate sobre o STF, por sua vez, é mais promissor. A população, cansada de decisões monocráticas e prisões midiáticas, tende a apoiar quem se opõe ao ativismo judicial. Contudo, a direita precisa tomar cuidado para não cair no discurso golpista. A solução não é desobedecer a Corte, mas aprovar leis que limitem seu poder, como a PEC da Vingança, que tramita no Congresso.
O debate terminou sem grandes novidades, mas com uma certeza: a eleição ao Senado em São Paulo será um microcosmo da disputa nacional. O eleitor terá que escolher entre o identitarismo de esquerda, o liberalismo econômico do Novo e o conservadorismo radical do PL. A direita, se não se unir, pode perder a cadeira para a esquerda, que, apesar das divisões, mostrou mais coesão no palco.
Ao final, os candidatos trocaram apertos de mão, mas a tensão ficou no ar. As pesquisas de intenção de voto, divulgadas na véspera, mostram empate técnico entre o PL e o PSDB, com o Novo crescendo. O segundo turno, caso ocorra, promete ser ainda mais acirrado.
A pergunta que fica é: a direita paulista vai aprender com os erros do passado ou vai repetir o roteiro de 2018, quando a falta de unidade elegeu um candidato de esquerda? O tempo, e as urnas, dirão.
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**1. O que é a 'PEC da Vingança' e como ela pode limitar o STF?**
A PEC da Vingança, formalmente PEC 8/2021, proposta pelo senador Oriovisto Guimarães (Podemos-PR), estabelece mandato de oito anos para ministros do STF e exige que decisões monocráticas sejam referendadas pelo plenário em até 30 dias. A proposta, que está em tramitação no Senado, é vista como uma resposta ao ativismo judicial e à demora em julgamentos colegiados. Caso aprovada, muda o equilíbrio de poder entre os Poderes.
**2. Como a pauta da 'masculinidade tóxica' pode influenciar o eleitor paulista?**
Segundo pesquisas do Datafolha de agosto de 2026, 62% dos eleitores de São Paulo consideram a segurança pública o principal problema do estado, enquanto apenas 9% citam questões de gênero. A pauta identitária, embora relevante para o eleitorado jovem e universitário, tem apelo limitado entre a população geral. Candidatos que a priorizam podem ser vistos como elitistas e desconectados das urgências locais, mas podem conquistar votos em nichos específicos, especialmente na capital e em cidades universitárias.
Por Renan Filho · 2026-09-21