O primeiro debate do ciclo eleitoral ao Senado, organizado por Folha de S.Paulo e UOL, já começou com os ânimos exaltados. Ricardo Salles (sem partido, mas com apoio do PL) e André do Prado (PL) protagonizaram um embate direto pela chamada “vaga à direita” — a cadeira que representa os valores liberal-conservadores no pleito. Em sua fala inicial, Salles defendeu a necessidade de “liberdade econômica real” e criticou o que chamou de “populismo penal” de seu oponente. Já André do Prado, em declaração à imprensa após o evento, afirmou que a direita precisa de “alguém que enfrente o STF e defenda a família, não um ambientalista de ocasião”.
O confronto foi direto ao ponto: Salles, que foi ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro, tentou se posicionar como o candidato da direita moderna, focada em desregulamentação, redução de impostos e reforma do Estado. Em publicação nas redes sociais após o debate, ele afirmou que “a direita não pode se resumir a gritos contra o Supremo; precisa oferecer um plano de crescimento para o Brasil”. André do Prado, por sua vez, usou o tempo de debate para reforçar sua atuação na Comissão de Segurança Pública da Câmara e atacar a política ambiental de Salles, chamando-a de “inconsistente com os valores conservadores”. Segundo o deputado em entrevista à Rádio Bandeirantes, “o agronegócio não precisa de licenciamento flexível; precisa de respeito ao direito de propriedade”.
O debate expôs uma cisão que já vinha se desenhando nas entranhas da direita brasileira. De um lado, a ala que enxerga o liberalismo econômico como carro-chefe — com Salles defendendo a simplificação do licenciamento ambiental, a aprovação da reforma tributária e a ampliação do comércio exterior. Do outro, a ala bolsonarista raiz, representada por André do Prado, que prioriza pautas de costumes (armamento, combate à “ideologia de gênero”, enfrentamento ao STF) e vê com desconfiança qualquer aproximação com pautas verdes, mesmo que embaladas por “mercado de carbono”.
Por que isso importa? Porque a definição do candidato único da direita ao Senado pode redefinir o equilíbrio de forças no Congresso a partir de 2027. Atualmente, a bancada conservadora reúne cerca de 40% dos votos, mas está fragmentada entre partidos e personalidades. Se Salles e André do Prado não selarem um acordo, a direita corre o risco de lançar duas candidaturas e dividir o eleitorado — abrindo espaço para um nome de centro-esquerda ou até mesmo para um candidato petista. Em nota oficial, a presidência do PL afirmou que “as lideranças do partido estão em diálogo para construir uma unidade”, mas até o momento não houve sinal de recuo de nenhum dos dois.
A análise FORTIS deste embate é clara: o liberalismo econômico de Salles oferece um projeto mais coerente com os princípios de livre mercado e redução do Estado, mas peca ao tentar abraçar pautas ambientais que, no imaginário conservador, ainda são associadas à esquerda. Já André do Prado acerta ao resgatar a base bolsonarista, mas erra ao transformar a luta contra o STF em plataforma única — o que afasta investidores e setores produtivos que querem previsibilidade jurídica. O mercado financeiro, segundo analistas consultados pelo portal, reage melhor a candidaturas que sinalizem responsabilidade fiscal e abertura comercial. Nesse quesito, Salles leva vantagem: sua atuação no Ministério do Meio Ambiente, embora controversa, foi coerente com a tentativa de eliminar barreiras burocráticas para o agronegócio. Já André do Prado, com seu discurso de “choque de ordem”, atrai o eleitorado raiz, mas não apresenta um plano econômico factível.
Como contraponto, é preciso reconhecer que a unidade forçada pode ser pior que a divisão. Se Salles e André do Prado taparem os olhos para as diferenças e lançarem uma candidatura de fachada, o eleitorado de direita pode se sentir traído e migrar para candidatos nanicos ou simplesmente abster-se. Em declaração ao jornal O Estado de S. Paulo, o cientista político Cláudio Gonçalves alerta que “a direita brasileira precisa amadurecer ideologicamente antes de buscar a unidade eleitoral; caso contrário, repetirá o erro da esquerda, que se uniu em torno de Lula e perdeu a capacidade de inovar”. O embate deste debate, portanto, é mais do que uma disputa de egos — é um teste de maturidade para o conservadorismo brasileiro.
O desfecho dessa briga interna definirá se a direita entrará nas urnas com um discurso coeso ou com duas facções jogando uma contra a outra. Enquanto isso, o eleitor liberal que espera por menos impostos, mais liberdade e segurança jurídica fica na expectativa de qual dos dois – o ex-ministro técnico ou o deputado combativo – conseguirá realmente representar seus anseios no Senado.
Por Renan Filho · 2026-09-21