**Lead**
Uma nova pesquisa Datafolha, divulgada nesta sexta-feira (2), aponta um cenário eleitoral claramente dividido por segmento religioso no primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Entre os eleitores católicos, o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera com 50% das intenções de voto. Já entre os evangélicos, o candidato Flávio aparece à frente com 52% — um quadro que reforça a importância do fator fé na disputa pelo Palácio do Planalto.
**Contexto**
O levantamento ouviu 2.500 eleitores em todo o país entre os dias 28 e 30 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou menos. A amostra reflete a composição religiosa do eleitorado brasileiro, em que os católicos ainda representam cerca de 45% da população, enquanto os evangélicos somam aproximadamente 30%, segundo o IBGE. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-00942/2026.
Historicamente, o voto religioso tem sido um dos fatores decisivos nas eleições presidenciais brasileiras. Em 2022, por exemplo, Lula venceu entre católicos, mas perdeu terreno entre evangélicos, segmento que se tornou um polo de resistência ao petismo. A novidade agora é a consolidação de um nome específico da oposição — Flávio — como principal referência para esse eleitorado, superando o ex-presidente Jair Bolsonaro, que ainda é lembrado por muitos como o líder natural da direita, mas enfrenta restrições legais e desgaste político.
Flávio, cujo nome completo não foi revelado na pesquisa, mas que é amplamente identificado como senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho de Jair Bolsonaro, aparece como o candidato com maior rejeição entre católicos — porém, entre evangélicos, ele capitaliza a associação com pautas conservadoras, como a defesa da família tradicional e a oposição ao aborto e à ideologia de gênero. Por outro lado, Lula mantém a dianteira no eleitorado católico, tradicionalmente mais associado à teologia da libertação e a políticos de centro-esquerda.
**Análise**
Os números refletem uma polarização que vai além do campo político e se enraíza em visões de mundo distintas. O segmento católico, embora diverso, tem apresentado maior inclinação a candidatos com agenda social e diálogo com o Estado laico — o que beneficia Lula, que já contou com apoio de líderes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em gestões anteriores. Já o segmento evangélico, especialmente o pentecostal, tende a priorizar valores morais e a atuação em torno de temas como liberdade de culto e combate ao secularismo.
A vantagem de Flávio sobre os demais adversários no segmento evangélico indica que a estratégia de aproximação dos bolsonaristas com igrejas e líderes de grande audiência, como pastores midiáticos, está rendendo frutos. Nos bastidores, aliados do ex-presidente negociam alianças com as principais denominações, incluindo a Assembleia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus, para consolidar essa base. Lula, por sua vez, tenta cortar o caminho com ações voltadas à promoção da igualdade racial e à assistência social, que têm eco em comunidades religiosas progressistas.
Essa divisão religiosa pode se acentuar no segundo turno, quando o debate fica mais restrito a dois nomes. Se o confronto for entre Lula e Flávio, o cenário aponta para uma disputa acirrada, com estados do Norte e Nordeste, de maioria católica, tendendo ao petista, enquanto Sul, Sudeste e Centro-Oeste, com forte presença evangélica, podem pender para a oposição. A campanha, portanto, deve intensificar o uso de linguagem simbólica e de pautas caras às duas fés, como combate à fome para católicos e segurança pública para evangélicos.
Outro ponto relevante é o impacto da pesquisa no debate público sobre laicidade estatal. Enquanto alguns analistas veem com preocupação o fortalecimento de um voto explicitamente religioso — que pode levar a concessões perigosas em temas como políticas de gênero e educação —, outros argumentam que essa é uma resposta natural à participação cívica das igrejas. Independentemente da interpretação, os dados do Datafolha mostram que os candidatos precisarão se posicionar de forma clara e respeitosa sobre os anseios religiosos das comunidades, sem, contudo, transformar a eleição em um referendo sobre crenças.
**Fontes**
As informações contidas nesta coluna são baseadas na pesquisa Datafolha divulgada publicamente em 2 de outubro de 2026, registrada sob o protocolo BR-00942/2026. Os dados foram reproduzidos conforme divulgados pelos veículos parceiros da agência de notícias, sem que o FORTIS NEWS tenha realizado levantamentos próprios. A interpretação apresentada é de caráter analítico e não representa posição institucional da publicação.
Por Renan Filho · 2026-10-02