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Datafolha expõe Brasil dividido: Lula lidera nas metrópoles, enquanto Flávio Bolsonaro empata no interior — e o eleitorado do campo paga a conta

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-25

Nova pesquisa Datafolha revela um país bipartido: o ex-presidente Lula domina as regiões metropolitanas, mas o senador Flávio Bolsonaro alcança a mesma marca de 38% no interior. O dado expõe o esgotamento do modelo estatista nas grandes cidades e a ascensão de uma agenda liberal-conservadora no Brasil profundo.

A mais recente pesquisa Datafolha, divulgada nesta quinta-feira, escancara o racha eleitoral que define a corrida presidencial de 2026. No recorte por região, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera isolado nas regiões metropolitanas, com 38% das intenções de voto, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) registra os mesmos 38% no interior do país. O empate técnico no agregado nacional, que já vinha sendo apontado por outros institutos, agora ganha contornos geográficos que explicam muito sobre a estratégia das campanhas.

Os números foram coletados entre os dias 22 e 24 de setembro, com 2.500 entrevistas presenciais em 120 municípios, e a margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O levantamento reforça uma tendência já observada em pesquisas anteriores: o eleitor metropolitano, mais exposto à máquina pública e aos programas sociais, tende a proteger o status quo petista. Já o interior, historicamente abandonado pelos governos centrais, demonstra maior abertura ao discurso de redução do Estado e de liberdade econômica.

Por que importa

A divisão territorial desenha o cenário mais competitivo desde a redemocratização. Lula, que construiu sua base eleitoral nas periferias e nos grandes centros urbanos, vê seu domínio tradicional ser desafiado justamente onde a classe média trabalhadora mais sofre com a inflação de alimentos e a precarização dos serviços públicos. Nas capitais e regiões metropolitanas, a memória dos programas sociais e o medo do desconhecido ainda falam alto. Mas o interior, que concentra a produção de alimentos e a atividade agropecuária, enxerga na alta carga tributária e na burocracia os principais entraves ao desenvolvimento.

Flávio Bolsonaro, que nunca disputou uma eleição presidencial, capitaliza a rejeição ao PT no agronegócio e entre os pequenos empresários do interior. Seu discurso de enxugamento da máquina pública, reforma tributária radical e defesa da soberania nacional encontra eco em regiões onde o Estado é distante e ineficiente. O senador fluminense, apesar de não ser o nome preferido do establishment bolsonarista, tem se mostrado um articulador habilidoso, unindo a base conservadora em torno de uma pauta pragmática: menos imposto, mais emprego e segurança jurídica no campo.

Análise FORTIS

Os dados do Datafolha não mentem: o Brasil está dividido entre aqueles que dependem do Estado e aqueles que precisam sobreviver apesar dele. Nas regiões metropolitanas, onde o funcionalismo público é mais numeroso e os benefícios sociais chegam com mais facilidade, Lula mantém vantagem confortável. O problema é que esse modelo — que tributa a produção para sustentar o consumo — está com os dias contados. O déficit público, a inflação persistente e a falta de investimentos em infraestrutura são o preço que o país paga por priorizar a máquina estatal em detrimento do setor produtivo.

O interior, por outro lado, não cai mais no conto do desenvolvimentismo. O produtor rural aprendeu na prática que o crédito subsidiado do BNDES vem acompanhado de juros altos no restante da economia. O pequeno comerciante do sertão sabe que cada nota fiscal emitida significa mais um pedaço de seu lucro entregue a um Estado que não devolve serviços à altura. Essa percepção, somada à ascensão de lideranças liberais e conservadoras no campo, explica o desempenho de Flávio Bolsonaro nas regiões afastadas dos grandes centros.

É preciso, contudo, ser honesto com os fatos: o senador não apresenta um programa econômico detalhado para o Brasil. Sua vantagem no interior decorre mais da rejeição ao PT e da herança política do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, do que de um projeto claro de nação. O FORTIS NEWS sempre defendeu que a direita brasileira precisa amadurecer suas propostas, abandonando o personalismo e abraçando um receituário sério de liberalização econômica, privatização de estatais e reforma administrativa. Sem isso, qualquer vitória eleitoral pode se transformar em mais do mesmo.

Contraponto

Os estrategistas petistas minimizam o resultado no interior, argumentando que as regiões metropolitanas concentram o maior número de eleitores e que a vantagem de Lula nesses redutos é suficiente para garantir a vitória no segundo turno. A leitura não está totalmente errada: em 2022, o ex-presidente venceu em 15 dos 27 estados, puxado pelos grandes centros urbanos do Sudeste e do Nordeste. No entanto, a margem no interior vem caindo a cada eleição, e o custo de manter essas bases cresce na mesma proporção.

O PT, para sustentar sua hegemonia nas cidades, depende de um orçamento público cada vez mais inchado. Programas como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e o reajuste real do salário mínimo são populares, mas exigem uma arrecadação brutal sobre a classe média e os setores produtivos. O eleitor metropolitano ainda não fez essa conta — mas o interior já percebeu que é ele quem paga a fatura. A pesquisa indica, portanto, não apenas uma preferência eleitoral, mas um diagnóstico sobre o futuro econômico do país.

**O que explica a vantagem de Lula nas regiões metropolitanas?**

Na larga medida, a concentração de beneficiários de programas sociais e de servidores públicos nessas áreas. Somado a isso, o acesso mais amplo à mídia tradicional e a presença histórica do PT nos movimentos sindicais urbanos reforçam a lealdade eleitoral. O eleitor metropolitano, em geral, teme que uma mudança de governo implique cortes imediatos nos benefícios — uma narrativa eficaz, mas que desconsidera o custo fiscal da continuidade.

**Flávio Bolsonaro pode vencer Lula no segundo turno?**

Os números indicam cenário de empate técnico, mas a vantagem regional não é suficiente para garantir uma vitória. A disputa seria decidida nos estados do Norte e no interior do Nordeste, onde o senador precisa ampliar sua base para compensar a desvantagem nas capitais. O desafio de Flávio é convencer o eleitorado urbano de que sua agenda liberal-conservadora trará benefícios concretos para as periferias — um discurso que ainda não encontrou tradução prática nas grandes cidades.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.