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Uma nova pesquisa do Datafolha, divulgada nesta sexta-feira (2 de outubro de 2026), revela um cenário eleitoral profundamente segmentado por religião no primeiro turno da eleição presidencial brasileira. Entre os eleitores católicos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 50% das intenções de voto, enquanto o deputado federal Flávio Bolsonaro (PL) lidera entre os evangélicos, com 52%. Os números, coletados entre os dias 29 de setembro e 1º de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais, indicam que a fé continua sendo um fator decisivo na política nacional, moldando não apenas preferências individuais, mas também estratégias de campanha.
**Contexto**
A pesquisa foi realizada em 183 municípios brasileiros, com 3.200 entrevistas presenciais, e registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-01234/2026. O levantamento ouviu eleitores de todas as regiões do país, com controle de cotas por idade, gênero, escolaridade e renda. O cenário estimulado apresentou os dois principais candidatos, além de outros postulantes, como Simone Tebet (MDB) e Ciro Gomes (PDT), que não alcançaram dois dígitos.
O domínio de Lula entre católicos não é novidade histórica. O ex-presidente sempre teve forte apelo junto à base católica, especialmente em regiões do Nordeste e em periferias urbanas, onde a Igreja Católica mantém forte atuação social. Em 2022, Lula venceu entre católicos por ampla margem, mas a vantagem atual de 50% sugere uma consolidação desse eleitorado, mesmo após anos de ataques do campo bolsonarista à esquerda por suposto "marxismo cultural" e "perseguição religiosa".
Por outro lado, o avanço de Flávio Bolsonaro entre evangélicos reflete uma estratégia deliberada do PL de ocupar o espaço deixado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, seu pai, que está inelegível até 2030. Flávio tem intensificado sua presença em cultos e eventos de igrejas neopentecostais, como a Assembleia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus, e adotado um discurso de "guerra espiritual" contra o que chama de "ideologia de gênero" e "cristofobia". A vantagem de 52% entre evangélicos, no entanto, ainda é menor do que a obtida por Jair Bolsonaro em 2022, quando chegou a 67% nesse segmento, indicando que há espaço para crescimento ou erosão.
**Análise**
A polarização religiosa observada no Datafolha não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, mas ganha contornos próprios em um país onde cerca de 85% da população se declara cristã. A divisão entre católicos e evangélicos, que historicamente não era determinante no voto, tornou-se uma clivagem central desde as eleições de 2018, quando o bolsonarismo conseguiu mobilizar a chamada "bancada evangélica" em torno de pautas morais. Agora, com Flávio Bolsonaro assumindo o protagonismo, o PL tenta consolidar essa base como um bloco monolítico, enquanto o PT busca reverter a perda de espaço entre os evangélicos com diálogo e pautas sociais.
O dado mais preocupante para a campanha de Lula é a diferença de 2 pontos percentuais entre católicos e evangélicos, que, somada à abstenção histórica de eleitores mais pobres e menos escolarizados, pode ser decisiva em um segundo turno apertado. Pesquisas anteriores do mesmo instituto, divulgadas em setembro, mostravam Lula com 48% dos votos válidos e Flávio com 41%, mas a segmentação religiosa sugere que o crescimento de Flávio entre evangélicos pode estar subestimado nas médias nacionais, especialmente em estados do Sul e Centro-Oeste, onde a população evangélica é proporcionalmente maior.
Outro ponto de atenção é o impacto das chamadas "fake news" religiosas. Durante a campanha, circularam nas redes sociais vídeos manipulados associando Lula a supostos planos de fechar igrejas e confiscar bens de templos, o que foi desmentido por agências de fact-checking, mas pode ter influenciado eleitores menos informados. O Datafolha não mediu a exposição a desinformação, mas a diferença de comportamento entre os dois grupos religiosos sugere que o discurso de perseguição tem eco, especialmente entre evangélicos de menor escolaridade.
**Fontes**
As informações desta matéria foram obtidas a partir do relatório completo da pesquisa Datafolha, registrada no TSE sob o protocolo BR-01234/2026, e divulgada em coletiva de imprensa na manhã desta sexta-feira. Dados históricos de eleições anteriores foram consultados no acervo do Tribunal Superior Eleitoral e em arquivos públicos do Datafolha. Não foram utilizadas fontes anônimas. A reportagem buscou contato com as assessorias de campanha de Lula e Flávio Bolsonaro para comentar os números, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.
Por Renan Filho · 2026-10-02