**Lead**
Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira (2 de outubro de 2026) revela que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém a liderança entre eleitores católicos, com 50% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) alcança 52% entre os evangélicos. O levantamento, realizado entre os dias 28 de setembro e 1º de outubro, ouviu 3.090 eleitores em 201 municípios brasileiros, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
**Contexto**
A pesquisa Datafolha é um dos termômetros mais tradicionais do cenário político brasileiro. Neste ano, o instituto procurou captar o impacto da religião no comportamento eleitoral, um dos eixos centrais da polarização entre a base petista e o campo bolsonarista. Historicamente, Lula sempre teve forte penetração entre católicos – segmento que representa cerca de 50% do eleitorado brasileiro, segundo o Censo de 2010, embora estudos recentes do IBGE apontem queda para aproximadamente 45%. Já os evangélicos, que hoje somam cerca de 31% da população, são alvo prioritário da campanha do PL.
Os números divulgados mostram uma geografia de fé bem definida: Lula lidera entre católicos (50% contra 45% de Flávio) e também entre os sem religião (55% a 40%). Por outro lado, o senador Flávio Bolsonaro, que assumiu a candidatura após a inelegibilidade do pai, Jair Bolsonaro, domina entre evangélicos (52% contra 42% de Lula) e entre os que se declaram “outras religiões”, com 48% a 44%. O levantamento considerou apenas os votos válidos, excluindo brancos e nulos.
O desempenho de Flávio entre evangélicos é ligeiramente superior ao registrado por Jair Bolsonaro em 2022, quando o então presidente obteve cerca de 51% dos votos desse grupo no primeiro turno. Analistas atribuem o crescimento à consolidação do discurso conservador na campanha do PL, que enfatiza pautas como liberdade religiosa, oposição ao aborto e defesa da família tradicional. Lula, por sua vez, tenta reverter a desconfiança histórica de parte do segmento evangélico, intensificando o diálogo com lideranças pentecostais e prometendo manutenção de políticas de assistência social como o Bolsa Família.
**Análise**
Os números do Datafolha indicam que a religião continua sendo um divisor de águas na política brasileira. Católicos, antes base majoritária do PT, hoje estão divididos. A vantagem de Lula nesse grupo é de apenas cinco pontos, bem menor que os 12 pontos obtidos em 2022 contra Jair Bolsonaro. A erosão do voto católico pode ser explicada pelo avanço de movimentos carismáticos e pela aproximação de parte do clero com pautas conservadoras, especialmente após a posição ambígua da CNBB nos últimos anos.
Já o domínio de Flávio entre evangélicos parece consolidado, mas com limites. A vantagem de dez pontos sobre Lula é robusta, mas não garante a vitória no primeiro turno. Como os evangélicos representam cerca de um terço do eleitorado, Flávio precisa ampliar sua base entre católicos e eleitores de outras religiões para ultrapassar os 50% dos votos válidos. Atualmente, a pesquisa aponta um empate técnico no cenário geral: Lula tem 48% e Flávio, 47%, dentro da margem de erro.
Outro fator relevante é o impacto do voto religioso nas regiões Norte e Nordeste, onde a presença evangélica cresce mais rapidamente. No Nordeste, tradicional reduto lulista, Flávio aparece com 45% entre evangélicos, contra 50% de Lula, o que sinaliza uma luta mais acirrada do que em 2022. No Sul e Sudeste, o cenário se inverte, com Flávio à frente entre evangélicos por mais de 15 pontos.
A campanha de Lula aposta em uma estratégia de reforço da identidade católica do presidente, que frequentemente menciona sua devoção a Nossa Senhora Aparecida e participa de eventos religiosos. Já Flávio Bolsonaro tem usado o templo como palanque, com encontros semanais com pastores e bispos evangélicos. A parceria com o ex-presidente Jair Bolsonaro, que continua influente no segmento, também é capitalizada.
**Fontes**
Os dados foram extraídos da pesquisa Datafolha registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-00001/2026. Informações complementares foram obtidas em reportagens do jornal Folha de S.Paulo, que publicou os números na íntegra, e em análises do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope). O histórico de voto religioso foi baseado em pesquisas anteriores do mesmo instituto e em dados do Censo 2022 do IBGE.
Por Renan Filho · 2026-10-02