**Lead**
Pesquisa do instituto Datafolha divulgada nesta quinta-feira (3) mostra que 47% dos brasileiros afirmam ter menos interesse nas eleições presidenciais de 2026 do que no pleito de 2022. O dado, coletado entre os dias 28 e 30 de setembro, acende um alerta não apenas no campo político, mas também na esfera econômica: a apatia do eleitorado pode sinalizar desconfiança nas instituições e nas perspectivas de crescimento do país, fatores que influenciam diretamente decisões de investimento e consumo.
**Contexto**
A pesquisa ouviu 2.556 eleitores em 172 municípios brasileiros, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O levantamento comparou o nível de interesse declarado para a eleição deste ano com o registrado em 2022, quando a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro polarizou o país. Na ocasião, o interesse era elevado: 71% dos entrevistados disseram estar muito ou bastante interessados. Agora, apenas 38% mantêm o mesmo entusiasmo, enquanto 47% relatam queda no interesse — um recuo significativo.
O Datafolha também apurou que o desinteresse é mais acentuado entre os jovens de 16 a 24 anos (54%) e entre eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos (51%). Esses grupos são justamente os mais sensíveis a variações econômicas, como inflação, desemprego e acesso ao crédito. A pesquisa não detalha as causas, mas analistas apontam que a percepção de estagnação econômica, a falta de propostas concretas dos candidatos e o cansaço com a polarização podem estar por trás do fenômeno.
**Análise**
Para a economia, o desinteresse eleitoral não é um dado meramente político. O mercado financeiro reage a sinais de instabilidade ou de apatia popular porque eles podem indicar menor previsibilidade de políticas públicas. Quando o eleitorado se desengaja, cresce o risco de que o próximo governo tenha baixa legitimidade ou dificuldade de aprovar reformas estruturais — como a tributária, a administrativa ou a fiscal. Isso afeta o prêmio de risco dos ativos brasileiros, a taxa de câmbio e as expectativas de inflação.
Além disso, o consumo das famílias, motor do PIB, tende a ser influenciado pelo humor social. Um eleitorado desinteressado consome menos bens duráveis, adia investimentos pessoais e reduz a propensão a tomar crédito. Setores como varejo, construção civil e automotivo já sentem os efeitos da incerteza eleitoral nos últimos meses. A queda no interesse pode aprofundar esse ciclo de cautela, retardando a recuperação econômica esperada para o quarto trimestre de 2026.
Outro ponto relevante é o impacto sobre a arrecadação tributária. Eleições com baixa participação tendem a gerar governos menos representativos, o que pode levar a políticas fiscais mais erráticas. Investidores estrangeiros, que já reduziram exposição ao Brasil neste ano, podem interpretar o desinteresse como um sinal de fragilidade democrática e adiar decisões de aporte. A combinação de juros elevados, câmbio pressionado e baixo engajamento popular cria um cenário de risco que o Banco Central e o Ministério da Fazenda monitoram de perto.
**Fontes**
Os dados apresentados são da pesquisa Datafolha, realizada entre 28 e 30 de setembro de 2026, com 2.556 eleitores em 172 municípios, margem de erro de dois pontos percentuais. A íntegra do levantamento está disponível no site do instituto. Análises adicionais baseiam-se em relatórios de mercado do Banco Central e em notas técnicas de consultorias econômicas como a Tendências e a LCA Consultores.
Por Renan Filho · 2026-10-03