**Lead**
Uma nova pesquisa do instituto Datafolha, divulgada nesta semana, indica que, nos últimos dias de campanha eleitoral no Brasil, fatores como conversas com amigos, interações em redes sociais, orientações de líderes religiosos e a cobertura da imprensa tradicional exercem uma influência decisiva sobre a escolha do eleitor. O levantamento, realizado em todas as regiões do país, mostra que esses quatro canais superam, em impacto, instrumentos formais como debates televisionados, programas de rádio e TV obrigatórios e materiais de campanha impressos. O resultado acende um alerta sobre o papel das bolhas informacionais e da desinformação no processo democrático brasileiro, um tema que ganha relevância internacional à medida que o país se prepara para um pleito que pode redefinir alianças geopolíticas na América Latina.
**Contexto**
O Brasil realiza eleições gerais em outubro de 2026, com disputa para presidente, governadores, senadores e deputados. O Datafolha, instituto ligado ao jornal Folha de S.Paulo, monitora regularmente a intenção de voto e os fatores que moldam a decisão do eleitor. Na reta final, quando grande parte dos eleitores já definiu seu candidato, a pesquisa busca entender o que pode provocar mudanças de última hora. Historicamente, a reta final de campanhas brasileiras é marcada por intensa mobilização de igrejas evangélicas e católicas, uso massivo de aplicativos de mensagens como WhatsApp e Telegram, e uma cobertura jornalística que frequentemente destaca denúncias ou escândalos. Nos últimos ciclos eleitorais, a influência de redes sociais cresceu exponencialmente, com algoritmos que favorecem conteúdos emocionais e polarizados. A novidade agora é a confirmação de que o boca a boca presencial — amigos e familiares — ainda supera o digital em termos de confiança e capacidade de convencimento.
A pesquisa ouviu eleitores em mais de 150 municípios brasileiros, com margem de erro estimada em dois pontos percentuais. Embora os números exatos não sejam divulgados neste artigo por questões editoriais, a tendência apontada é clara: o voto de última hora é menos racional e mais influenciado por laços afetivos e comunitários. Isso se alinha com estudos internacionais sobre comportamento eleitoral, como os realizados pelo Pew Research Center, que mostram que, em democracias com alta polarização, as decisões finais são frequentemente tomadas com base em recomendações de fontes consideradas confiáveis no círculo pessoal. No Brasil, onde a confiança nas instituições tradicionais é baixa — o Congresso Nacional, por exemplo, tem aprovação média de apenas 20% —, a igreja e a imprensa local funcionam como âncoras de credibilidade para muitos eleitores.
**Análise**
O resultado do Datafolha tem implicações diretas para a estratégia das campanhas. Candidatos que investem pesado em inserções na TV e rádio podem estar desperdiçando recursos se não combinarem essa exposição com ações de base, como visitas a comunidades, cultos religiosos e eventos de rua. A influência das redes sociais, por sua vez, reforça a necessidade de moderação de conteúdo e combate à desinformação. Plataformas como WhatsApp, onde grupos familiares e de amigos compartilham correntes de áudio e vídeos, tornam-se o principal vetor de notícias falsas na reta final. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já anunciou parcerias com as big techs para remover conteúdos fraudulentos, mas a velocidade da disseminação muitas vezes supera a capacidade de resposta.
Para a comunidade internacional, o que acontece no Brasil é um termômetro da saúde democrática global. O país é a maior economia da América Latina e um dos maiores eleitorados do mundo. Se a influência de redes sociais e igrejas continuar a crescer, outros países podem observar e replicar modelos de campanha. Por outro lado, a dependência de fontes não institucionais — como amigos e líderes religiosos — pode fragilizar o sistema representativo, já que decisões baseadas em afeto ou fé nem sempre refletem o interesse público. Analistas políticos apontam que, sem um fortalecimento da educação midiática e da transparência digital, o Brasil corre o risco de ver suas eleições cada vez mais reféns de bolhas informacionais, um fenômeno que já foi observado nos Estados Unidos em 2020 e na Índia em 2024.
**Fontes**
- Instituto Datafolha: pesquisa sobre fatores de influência no voto na reta final da campanha eleitoral brasileira, realizada em setembro de 2026. - Tribunal Superior Eleitoral (TSE): dados oficiais sobre o calendário eleitoral e medidas de combate à desinformação. - Pew Research Center: estudos comparativos sobre comportamento eleitoral em democracias polarizadas. - Folha de S.Paulo: cobertura jornalística da pesquisa Datafolha e análises de colunistas políticos.
Por Renan Filho · 2026-10-03