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Economia

Datafolha: campanha de Flávio vê Lula estagnado, e aliados do petista torcem por ‘efeito Aécio’ para Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-09

Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira mostra cenário de estabilidade na avaliação do governo Lula, com aliados do presidente esperando que a economia gere um movimento semelhante ao que beneficiou Aécio Neves em 2014.

**Lead**

Uma nova pesquisa Datafolha, divulgada nesta quinta-feira (9), indica que a avaliação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se mantém estável, sem grandes oscilações nos últimos meses. O levantamento, encomendado por veículos de imprensa, mostra que a percepção sobre a economia brasileira continua dividida: enquanto a inflação e os juros altos pressionam o bolso do consumidor, indicadores de emprego e renda apresentam ligeira melhora. Nos bastidores, a campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — agora liderada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — avalia que Lula está “estagnado” e que o petista não consegue capitalizar politicamente os dados positivos do mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, aliados do atual presidente torcem por um fenômeno que chamam de “efeito Aécio”: a esperança de que, assim como ocorreu com o tucano Aécio Neves em 2014, a economia melhore nos últimos meses do mandato e impulsione a reeleição.

**Contexto**

A pesquisa Datafolha foi realizada entre os dias 6 e 8 de outubro, ouvindo mais de 2.500 eleitores em 169 municípios brasileiros. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O levantamento mostra que a aprovação do governo Lula oscilou dentro da margem de erro, mantendo-se em patamares semelhantes aos registrados em agosto. A reprovação também não apresentou variação significativa, o que é interpretado por analistas como um sinal de que o eleitorado ainda não formou uma opinião consolidada sobre o terceiro mandato do petista.

O cenário econômico é o principal termômetro dessa avaliação. De um lado, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumula alta de 4,2% nos últimos 12 meses, acima do centro da meta de 3,5%, mas abaixo dos picos de 2022. A taxa Selic, atualmente em 13,75% ao ano, continua a mais alta entre as principais economias do mundo, encarecendo o crédito e desestimulando investimentos. Por outro lado, a taxa de desemprego caiu para 7,8% no trimestre encerrado em agosto, o menor nível desde 2014. O rendimento médio real do trabalhador também subiu 3,5% no mesmo período, impulsionado pelo aumento do salário mínimo e por políticas de transferência de renda.

A campanha de Flávio Bolsonaro, que articula a pré-candidatura do ex-presidente para 2026, vê nessa estabilidade uma oportunidade. Em conversas internas, assessores do senador avaliam que Lula não conseguiu transformar a melhora de alguns indicadores em capital político. “O governo está parado. A economia melhora, mas o presidente não consegue se comunicar com o eleitor. Isso é um problema para ele e uma chance para nós”, disse um aliado próximo de Flávio, sob condição de anonimato.

Já no PT, a leitura é diferente. Aliados do presidente lembram que, em 2014, a então presidente Dilma Rousseff (PT) enfrentava uma avaliação negativa do governo, mas conseguiu se reeleger graças a uma recuperação econômica nos meses finais do primeiro mandato. Naquele ano, o PIB cresceu 0,5% no primeiro semestre, mas acelerou para 1,2% no segundo semestre, impulsionado por estímulos fiscais e pelo pré-sal. O chamado “efeito Aécio” — em referência ao candidato derrotado Aécio Neves — é usado hoje por petistas para descrever a esperança de que a economia brasileira volte a crescer de forma consistente em 2025 e 2026, garantindo a reeleição de Lula.

**Análise**

A estabilidade apontada pelo Datafolha é, ao mesmo tempo, um alívio e um alerta para o governo. Alívio porque a reprovação não disparou, apesar da inflação e dos juros altos. Alerta porque a aprovação também não cresce, mesmo com o desemprego em queda. Esse fenômeno é conhecido em ciência política como “descolamento entre economia real e percepção”: o eleitor médio ainda não sente no bolso os efeitos da melhora macroeconômica. A inflação dos alimentos, por exemplo, continua elevada, com o preço do arroz e do feijão acumulando alta de mais de 10% no ano. Enquanto isso, o crédito caro impede que pequenos empresários e consumidores financiem compras de maior valor, como automóveis e imóveis.

Para a campanha de Flávio Bolsonaro, o cenário ideal é o de “estagnação prolongada”. Quanto mais tempo Lula ficar sem conseguir converter dados econômicos positivos em aprovação, mais fácil será para a oposição construir uma narrativa de fracasso. O senador tem usado as redes sociais para criticar a política econômica do governo, especialmente a manutenção dos juros altos pelo Banco Central, que ele classifica como “sabotagem contra o povo”. A estratégia é associar Lula à inflação e ao endividamento, enquanto o PL tenta se posicionar como o partido do crescimento e do emprego.

Já no PT, a torcida pelo “efeito Aécio” é acompanhada de uma aposta em medidas de estímulo econômico. O governo estuda lançar, ainda neste ano, um novo programa de crédito para pequenas e médias empresas, além de ampliar o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. A ideia é injetar recursos na economia nos próximos meses, gerando empregos e renda, e esperar que o efeito se reflita nas pesquisas de 2026. No entanto, economistas alertam que o espaço fiscal é limitado. O déficit primário do governo central deve fechar 2026 em torno de 0,5% do PIB, e o teto de gastos — ainda em vigor, embora flexibilizado — impõe restrições a novos aumentos de despesas.

A comparação com 2014, porém, tem limites. Naquele ano, a economia brasileira se beneficiou de um boom de commodities e de investimentos em infraestrutura para a Copa do Mundo. Hoje, o cenário externo é menos favorável: a China desacelera, os juros globais estão altos e o preço do minério de ferro e do petróleo perdeu força. Além disso, a polarização política é muito mais intensa do que há uma década, o que torna a reeleição de Lula um desafio ainda maior, mesmo com uma eventual melhora econômica.

**Fontes**

- Datafolha – Pesquisa de opinião pública, outubro de 2026. Dados disponíveis no site do instituto. - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – Série histórica do IPCA e da taxa de desemprego. - Banco Central do Brasil – Taxa Selic e projeções de mercado. - Ministério da Fazenda – Relatório de Projeções Fiscais, setembro de 2026. - Declarações de assessores da campanha de Flávio Bolsonaro e de aliados do PT, obtidas pela reportagem em condição de anonimato.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.