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Pesquisa Datafolha divulgada nesta semana revela que 78% dos brasileiros são favoráveis à proibição das apostas esportivas online, as chamadas “bets”. Apenas 18% se posicionam contra a medida, enquanto 4% não souberam ou não quiseram opinar. O levantamento ouviu 2.000 pessoas em 130 municípios de todas as regiões do país, entre os dias 20 e 24 de setembro de 2026, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
**Contexto**
As apostas esportivas foram legalizadas no Brasil em 2018, por meio da Lei 13.756, que autorizou a exploração de loterias de apostas de quota fixa. Desde então, o mercado cresceu de forma acelerada, impulsionado por campanhas agressivas de marketing digital, patrocínios de clubes de futebol e a presença de influenciadores. Estima-se que o setor movimente dezenas de bilhões de reais por ano, com milhões de brasileiros realizando apostas regularmente.
No entanto, a expansão desenfreada trouxe consequências sociais graves. Relatórios do Ministério da Saúde indicam aumento de casos de ludopatia (dependência de jogos) registrados em unidades de atenção primária. O Banco Central também alertou para o crescimento do endividamento de famílias de baixa renda associado às apostas. Em 2024, o Datafolha já havia registrado que 60% dos entrevistados consideravam as bets prejudiciais à sociedade. O novo levantamento mostra uma escalada na rejeição, com 78% agora defendendo a proibição total.
A pesquisa também revela que a oposição à proibição é minoritária e concentrada entre homens jovens de alta renda. Entre os que se declaram contra, 62% afirmam que as apostas são uma forma legítima de entretenimento e que a proibição seria ineficaz, empurrando o mercado para a clandestinidade. Já entre os favoráveis, os principais argumentos são a proteção de crianças e adolescentes expostos à publicidade, o risco de endividamento familiar e a associação com lavagem de dinheiro.
**Análise**
O resultado do Datafolha reflete uma mudança significativa na percepção pública sobre as apostas online. Em menos de dois anos, a taxa de rejeição saltou de 60% para 78%, indicando que o debate sobre a regulamentação do setor ganhou urgência. Especialistas em saúde pública apontam que a facilidade de acesso por aplicativos, combinada com a ausência de limites de valor e tempo, cria um ambiente propício ao vício. A Organização Mundial da Saúde classifica o transtorno de jogo como uma condição de saúde mental, e o Brasil já registra um aumento de 40% nos atendimentos relacionados ao problema desde 2022.
Do ponto de vista econômico, a proibição total das bets teria impactos significativos. O setor emprega milhares de pessoas em tecnologia, marketing e atendimento, além de gerar arrecadação tributária estimada em bilhões de reais. No entanto, os custos sociais — endividamento, tratamento de dependentes, perda de produtividade — podem superar os benefícios fiscais. Países como Reino Unido e Austrália, que inicialmente adotaram modelos liberais, estão recuando e impondo restrições mais rígidas, como limites de depósito e proibição de publicidade em horários infantis.
O governo federal, sob pressão de parlamentares e entidades da sociedade civil, estuda um pacote de medidas que inclui a proibição de anúncios em meios de comunicação, a criação de um cadastro nacional de apostadores e a exigência de que as empresas comprovem capacidade financeira para cobrir prêmios. A pesquisa Datafolha pode acelerar esse processo, já que demonstra apoio popular a uma intervenção mais dura. A tendência é que o Congresso Nacional retome a discussão de projetos de lei que tramitam desde 2023, alguns deles prevendo a proibição total das apostas online.
**Fontes**
- Datafolha: pesquisa de opinião pública realizada entre 20 e 24 de setembro de 2026, com 2.000 entrevistados em 130 municípios brasileiros. Margem de erro: 2 p.p. Nível de confiança: 95%. - Ministério da Saúde: dados sobre atendimentos por transtorno de jogo no Sistema Único de Saúde (SUS), 2022-2026. - Banco Central do Brasil: relatórios sobre endividamento familiar e crédito consignado, 2025. - Organização Mundial da Saúde: Classificação Internacional de Doenças (CID-11), transtorno de jogo (código 6C50).
Por Renan Filho · 2026-10-01