**Lead**
Pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira mostra que 78% dos brasileiros apoiam a proibição total das apostas esportivas online, as chamadas bets, no país. Apenas 18% dos entrevistados se disseram contrários à medida, enquanto 4% não souberam ou não quiseram opinar. O levantamento, realizado entre os dias 23 e 26 de setembro, ouviu 2.000 pessoas em 113 municípios brasileiros e tem margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
**Contexto**
As bets – plataformas de apostas em eventos esportivos, especialmente futebol – explodiram no Brasil nos últimos anos, impulsionadas por campanhas agressivas de marketing e pelo crescimento do acesso à internet. Estima-se que mais de 5 milhões de brasileiros façam apostas regularmente, movimentando bilhões de reais por mês. O mercado, porém, opera em um vácuo regulatório que gera preocupações crescentes.
O governo federal tenta, desde o início de 2024, regulamentar o setor. O Ministério da Fazenda propôs regras que incluem licenciamento, tributação e medidas de proteção ao consumidor, mas o debate no Congresso Nacional se arrasta. Projetos de lei que preveem a proibição total das apostas também tramitam, mas sem consenso. Enquanto isso, aumentam os relatos de endividamento familiar, casos de vício em jogos e suspeitas de manipulação de resultados esportivos.
A pesquisa Datafolha captura o momento de insatisfação popular. O apoio à proibição é transversal: entre homens e mulheres, jovens e idosos, ricos e pobres, a maioria se mostra favorável ao banimento. O índice de rejeição às bets é particularmente alto entre pessoas com maior escolaridade e entre evangélicos, dois grupos que tradicionalmente se opõem ao jogo. Mesmo entre os apostadores, a aprovação à proibição é expressiva: 65% deles disseram ser favoráveis ao fim das plataformas.
**Análise**
O dado de que 78% dos brasileiros querem a proibição das bets tem implicações políticas imediatas. Em um ano eleitoral, deputados e senadores tendem a incorporar essa demanda em suas agendas. A pressão popular pode acelerar a tramitação de projetos de lei restritivos ou até mesmo forçar o governo a rever sua estratégia de regulação. Entretanto, a proibição total encontra resistência de setores econômicos que se beneficiaram do boom das apostas, como clubes de futebol, emissoras de TV e influenciadores digitais que lucram com os patrocínios e publicidade das plataformas.
Além disso, especialistas alertam que o banimento simples pode não ser eficaz. Em mercados onde a proibição foi adotada, como nos Estados Unidos antes de 2018, o jogo migrou para o mercado ilegal, sem qualquer controle. O Brasil teria que enfrentar o desafio de fiscalizar sites offshore e combater o crime organizado, que já demonstrou interesse pelo setor. Uma alternativa seria a regulação rigorosa com limites de gastos, restrições de publicidade e tratamento compulsório para dependentes, modelo adotado por países como Reino Unido e Austrália.
A pesquisa também levanta questões sociais. O perfil dos que mais apostam revela vulnerabilidade: jovens de baixa renda, endividados e com acesso facilitado ao crédito são os principais usuários. O efeito cascata atinge famílias inteiras, com casos de desvio de salários, penhora de benefícios sociais e aumento da inadimplência. A pressão para que o Estado aja, portanto, reflete não apenas uma opinião moral contra o jogo, mas uma percepção concreta de danos econômicos e sociais.
**Fontes**
- Datafolha Instituto de Pesquisas – levantamento realizado entre 23 e 26 de setembro de 2024, com 2.000 entrevistados em 113 municípios, margem de erro de 2 pontos percentuais. - Ministério da Fazenda – propostas de regulamentação das apostas esportivas apresentadas em 2024. - Projetos de lei em tramitação na Câmara dos Deputados e no Senado Federal sobre jogos de azar e apostas esportivas.
Por Renan Filho · 2026-10-01