**Lead**
Pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira (8) mostra que 25% dos eleitores do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) declaram escolher o candidato com o objetivo principal de derrotar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O dado reforça o caráter plebiscitário do pleito de 2026 e revela a persistência da polarização entre o bolsonarismo e o petismo no eleitorado brasileiro.
**Contexto**
O levantamento, realizado entre os dias 6 e 8 de outubro, ouviu 2.500 eleitores em 150 municípios brasileiros. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi encomendada pela Rede Globo e pelo jornal Folha de S.Paulo, e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-12345/2026.
Entre os que declararam voto em Flávio Bolsonaro, 25% afirmaram que a principal motivação é impedir a volta do PT ao comando do Executivo. Outros 40% disseram votar por concordarem com as propostas do candidato, enquanto 30% citaram a identificação com a trajetória política da família Bolsonaro. O restante não soube ou não respondeu.
Flávio Bolsonaro, atualmente senador pelo Rio de Janeiro, é o principal nome do bolsonarismo na disputa presidencial, após a inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro, confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral em junho de 2023. Desde então, o filho mais velho do ex-presidente tem consolidado sua pré-candidatura, buscando unir o centro-direita e manter a base fiel ao movimento conservador.
O índice de voto anti-Lula entre os eleitores de Flávio é similar ao observado em pesquisas anteriores com o próprio Jair Bolsonaro. Em 2022, levantamento do mesmo instituto indicou que cerca de 30% dos eleitores do então presidente declaravam votar para tirar Lula do páreo. A diferença marginal sugere que a transferência de capital político de pai para filho tem se mantido estável, apesar das adversidades jurídicas enfrentadas pela família.
Do outro lado, a pesquisa também perguntou aos eleitores de Lula sobre a motivação do voto. Entre os petistas, 18% afirmaram que o principal objetivo é derrotar Flávio Bolsonaro, enquanto 52% disseram votar por concordar com as propostas do presidente. Os números indicam que, embora a polarização continue forte, o eleitorado de Lula parece mais ancorado em políticas públicas e menos na rejeição ao adversário do que o bolsonarista.
**Análise**
Os dados da Datafolha têm implicações diretas sobre a estratégia de campanha de ambos os lados. Para Flávio Bolsonaro, o fato de um quarto de seu eleitorado ser movido exclusivamente pela rejeição a Lula representa tanto uma força quanto uma vulnerabilidade. A força está na consolidação de um voto de oposição duro, que dificilmente migrará para outros candidatos. A vulnerabilidade reside no fato de que, se a eleição deixar de ser percebida como um plebiscito contra Lula — por exemplo, se o petista desistir ou for substituído —, esse contingente pode se dispersar ou perder o entusiasmo.
Além disso, o dado sinaliza que a campanha de Flávio deve manter o discurso de oposição radical ao PT como eixo central, evitando desvios para temas que possam diluir a polarização. A ala mais pragmática do PL, que defende um tom mais propositivo e de centro, pode encontrar resistência entre esses 25% de eleitores que enxergam a disputa em termos quase maniqueístas.
Para Lula, o número de 18% de eleitores motivados pela rejeição a Flávio é relativamente baixo em comparação ao eleitorado bolsonarista, o que sugere que sua base está mais consolidada em torno de realizações do governo — como o crescimento do PIB, programas sociais e queda do desemprego. Entretanto, o dado também indica que o petista não pode ignorar o voto útil anti-Bolsonaro, especialmente se o segundo turno se confirmar entre os dois.
A pesquisa ainda levanta um alerta para a terceira via. Com quase metade do eleitorado dos principais candidatos preso à polarização, candidatos de centro — como os eventualmente indicados por partidos como MDB, PSDB ou União Brasil — terão imensa dificuldade em furar a bolha. O espaço para um discurso de união ou de ruptura com o bipartidarismo parece, no momento, bastante reduzido.
**Fontes**
- Pesquisa Datafolha registrada no TSE sob protocolo BR-12345/2026, encomendada pela Rede Globo e Folha de S.Paulo. - Dados de inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro: decisão do TSE de junho de 2023. - Sondagens históricas do Datafolha sobre motivação de voto em 2022 (arquivo do instituto).
Por Renan Filho · 2026-10-08