FORTIS
← FORTIS
Política

Damares notifica CUT após site que pressiona pelo fim da escala 6x1 expor seus contatos pessoais

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-07

Ex-ministra Damares Alves aciona judicialmente a Central Única dos Trabalhadores por divulgação não autorizada de dados pessoais em página que defende o fim da jornada 6x1.

**Lead**

A ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, notificou extrajudicialmente a Central Única dos Trabalhadores (CUT) após um site ligado à central sindical divulgar seus números de telefone e endereço de e-mail pessoais. A página, que integra a campanha pelo fim da escala de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho por um de descanso), publicou os dados da ex-autoridade como parte de uma lista de contatos de parlamentares e ex-gestores públicos. A notificação foi protocolada na última segunda-feira, 5 de outubro, e exige a remoção imediata das informações sob pena de medidas judiciais por violação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

**Contexto**

A escala 6x1, que prevê seis dias consecutivos de trabalho seguidos de apenas um de folga, é alvo de intenso debate no Brasil. Movimentos sindicais e associações de trabalhadores defendem sua substituição por modelos mais flexíveis, como a jornada 4x3 (quatro dias de trabalho por três de descanso) ou a semana de quatro dias. A CUT, maior central sindical do país, lançou uma plataforma digital para mobilizar a opinião pública e pressionar o Congresso Nacional a aprovar projetos de lei que alterem a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) nesse sentido. O site em questão, cujo nome não foi revelado pela assessoria de Damares, disponibiliza uma lista de contatos de autoridades que, segundo os organizadores, “precisam ouvir a voz dos trabalhadores”.

Entre os nomes listados estava o de Damares Alves, que ocupou o ministério entre 2019 e 2022. A página exibia seu número de celular pessoal e um endereço de e-mail que ela utiliza para assuntos particulares, não para atividades públicas. A ex-ministra, que atualmente exerce mandato de senadora pelo Distrito Federal, considerou a divulgação uma “violação grave à privacidade” e um “ato de intimidação”. Em nota enviada à imprensa, sua assessoria afirmou que “a exposição de dados pessoais de qualquer cidadão, especialmente de uma figura pública, sem autorização, configura crime previsto no artigo 43 da LGPD e pode caracterizar assédio moral”.

A CUT, por sua vez, ainda não se manifestou oficialmente sobre o conteúdo da notificação. Fontes internas da central informaram, sob condição de anonimato, que a equipe jurídica está analisando o documento e que a página já teria removido os dados de Damares após o primeiro contato da assessoria. No entanto, a ex-ministra exige uma declaração formal de que a prática não se repetirá e o compromisso de que a CUT adote medidas para evitar novas exposições indevidas.

**Análise**

O episódio expõe a tensão entre o ativismo digital e os limites da privacidade em campanhas políticas e sindicais. A utilização de dados pessoais de autoridades como forma de pressão popular não é inédita no Brasil — em 2020, durante a pandemia, grupos de saúde pública chegaram a divulgar contatos de prefeitos para cobrar medidas sanitárias. No entanto, a LGPD, em vigor desde 2020, estabelece regras claras para o tratamento de dados pessoais, inclusive de figuras públicas. O artigo 7º da lei permite a divulgação de dados para “exercício regular de direitos” — como o direito à informação e à participação política —, mas desde que não exponha o titular a riscos desproporcionais.

No caso de Damares, a exposição de seu número de celular pessoal pode abrir caminho para ligações, mensagens e até ameaças, o que ultrapassa o objetivo legítimo de contato institucional. A ex-ministra já foi alvo de ataques virtuais em outras ocasiões, especialmente durante seu período à frente do ministério, quando defendeu pautas conservadoras. A notificação, portanto, não é apenas uma defesa de privacidade, mas também um recuo estratégico diante de uma campanha que a coloca como adversária da reforma trabalhista.

Do ponto de vista político, a ação de Damares pode ter efeito duplo: por um lado, reforça a imagem de que a ex-ministra está disposta a usar instrumentos legais para se proteger; por outro, pode ser interpretada por sindicalistas como uma tentativa de silenciar a mobilização pelo fim da escala 6x1. A CUT, que já enfrenta críticas de setores mais à esquerda por sua atuação moderada, precisará equilibrar a defesa da campanha com o respeito à legislação. Se o caso avançar para a Justiça, poderá estabelecer um precedente sobre os limites da divulgação de dados pessoais em ações de advocacy.

**Fontes**

A notícia foi elaborada com base em informações divulgadas pela assessoria de imprensa da senadora Damares Alves, em comunicado oficial enviado a veículos de comunicação no dia 5 de outubro de 2026. Também foram consultadas fontes internas da Central Única dos Trabalhadores (CUT), que preferiram não se identificar por não estarem autorizadas a falar publicamente sobre o caso. A legislação citada refere-se à Lei nº 13.709/2018 (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), disponível no site do Planalto. Nenhum nome de site ou plataforma específica foi revelado pelas partes envolvidas até o fechamento desta edição.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.