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Uma crise de liquidez no Ueno Bank, instituição financeira privada de grande porte no Paraguai, desencadeou uma movimentação atípica de recursos de empresas estatais paraguaias para o sistema bancário brasileiro nas últimas 48 horas. A transferência envolve depósitos e aplicações financeiras de entidades como a Petropar (petrolífera estatal), a ANDE (Administração Nacional de Eletricidade) e a Essap (empresa de saneamento), que somam valores expressivos — ainda não divulgados oficialmente — e já provocaram reuniões de emergência entre o Banco Central do Paraguai e o Ministério da Economia do Brasil.
**Contexto**
O Ueno Bank, fundado na década de 1990, é um dos pilares do sistema financeiro paraguaio, com forte atuação no financiamento de infraestrutura e no agronegócio. Nos últimos meses, a instituição vinha enfrentando dificuldades decorrentes de exposição a créditos inadimplentes no setor agrícola, agravadas pela desaceleração econômica regional. Rumores sobre a incapacidade de honrar compromissos de curto prazo circularam nos mercados de Assunção, levando a uma corrida de correntistas institucionais.
As estatais paraguaias, que mantinham contas e aplicações no Ueno Bank por razões históricas e de conveniência operacional, decidiram agir preventivamente. A Petropar, responsável pela importação e distribuição de combustíveis, teria solicitado a transferência de recursos equivalentes a cerca de 15% de seu caixa disponível para bancos brasileiros de primeira linha, como Itaú e Banco do Brasil. A ANDE, que gerencia o setor elétrico, também movimentou parte de suas reservas, segundo fontes do setor energético paraguaio.
O Banco Central do Paraguai, em comunicado lacônico, afirmou estar “monitorando a situação” e que “medidas de supervisão estão sendo adotadas”. Já o Banco Central do Brasil confirmou ter recebido comunicações oficiais sobre as transferências, mas não detalhou os montantes. A movimentação ocorre em um contexto de integração financeira entre os dois países, facilitada por acordos de reciprocidade bancária e pela presença de filiais de bancos brasileiros no Paraguai.
**Análise**
A crise do Ueno Bank expõe a vulnerabilidade do sistema financeiro paraguaio diante de choques setoriais e a dependência de estatais como âncoras de liquidez. A transferência de recursos para o Brasil, embora legal e amparada por tratados bilaterais, representa uma perda de confiança no mercado doméstico paraguaio e pode acelerar uma fuga de capitais mais ampla. Especialistas apontam que, se a crise se aprofundar, o Paraguai poderá enfrentar dificuldades para financiar seu déficit fiscal, já que as estatais são importantes compradoras de títulos públicos.
Para o Brasil, o ingresso desses recursos — ainda que temporário — reforça a percepção de solidez do sistema bancário nacional, mas também traz riscos. Caso o Ueno Bank entre em processo de recuperação judicial ou liquidação, os ativos transferidos podem ser alvo de disputas legais entre credores paraguaios e brasileiros. Além disso, a exposição de bancos brasileiros a esses depósitos, embora segura no curto prazo, pode gerar volatilidade cambial se houver movimentações abruptas de retorno.
A situação também levanta questões sobre a governança das estatais paraguaias. A concentração de recursos em um único banco privado, sem diversificação adequada, é um sinal de fragilidade na gestão de riscos financeiros. O governo paraguaio, sob pressão, deve anunciar nos próximos dias medidas para fortalecer a supervisão bancária e evitar que episódios semelhantes se repitam.
**Fontes**
As informações foram obtidas a partir de comunicados oficiais do Banco Central do Paraguai (BCP), do Banco Central do Brasil (BCB), de relatórios setoriais da Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) e de declarações de analistas do mercado financeiro publicadas pela agência de notícias Reuters e pelo jornal paraguaio ABC Color. Dados adicionais foram extraídos de notas técnicas do Ministério da Economia do Paraguai e de fontes do setor energético que preferiram não ser identificadas.
Por Renan Filho · 2026-11-06