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O presidente do Banco Central do Paraguai (BCP), José Cantero, renunciou ao cargo nesta quarta-feira (4) em meio a uma crise bancária sem precedentes no país vizinho. A saída ocorreu após a revelação de que um grande banco privado paraguaio operava com um sistema de contabilidade paralela — alimentado por softwares de gestão financeira fraudados — que ocultava um rombo estimado em centenas de milhões de dólares. A crise, que já provocou corrida bancária e intervenção do governo de Assunção, acendeu alerta no Brasil, maior parceiro comercial do Paraguai e com forte presença de bancos brasileiros no mercado paraguaio.
**Contexto**
A crise começou a ganhar contornos dramáticos na última semana, quando o Banco Central do Paraguai identificou irregularidades nos balanços do Banco Nacional de Fomento (BNF), uma das maiores instituições financeiras do país. Investigações preliminares apontam que a instituição utilizava um sistema de tecnologia da informação (TI) customizado — supostamente desenvolvido por uma empresa terceirizada — que gerava dois conjuntos de relatórios financeiros: um para a auditoria interna e outro para o regulador. O software, segundo fontes do mercado, permitia que transações de alto risco fossem classificadas como ativos seguros, mascarando a real exposição a créditos podres.
O presidente do BCP, José Cantero, economista de formação e nomeado em 2023, tentou conter o pânico anunciando uma linha de liquidez de emergência de 500 milhões de dólares. No entanto, a medida não foi suficiente. Na segunda-feira (2), correntistas formaram filas em frente a agências do BNF em Assunção, Ciudad del Este e Encarnación, retirando depósitos em massa. O governo paraguaio decretou feriado bancário de 48 horas para estancar a sangria, mas a pressão política sobre Cantero tornou-se insustentável. Ele entregou o cargo na manhã de quarta-feira, após reunião com o presidente Santiago Peña.
A crise expõe fragilidades no sistema de supervisão bancária paraguaio, que depende fortemente de sistemas de informação legados — muitos deles desenvolvidos internamente ou por pequenas empresas locais sem certificações internacionais de segurança. Especialistas em tecnologia financeira apontam que a falta de padronização e de auditoria independente de software permitiu que a fraude passasse despercebida por meses.
**Análise**
Para o Brasil, a crise paraguaia representa um risco direto e indireto. Diretamente, bancos brasileiros com operações no Paraguai — como o Banco do Brasil, o Itaú e o Santander — podem sofrer com o contágio sistêmico. Embora essas instituições tenham exposição limitada ao BNF, a desconfiança generalizada no sistema financeiro paraguaio pode elevar o custo do crédito e reduzir o fluxo de investimentos brasileiros no país. O Paraguai é o terceiro maior destino de investimentos brasileiros na América do Sul, com destaque para os setores de agronegócio, energia e comércio de fronteira.
Indiretamente, a crise expõe um problema estrutural que também afeta o Brasil: a dependência de sistemas de TI legados e a dificuldade de regulação de softwares financeiros. No Brasil, o Banco Central (BC) tem avançado na modernização do sistema financeiro com o Open Finance e o Drex (moeda digital), mas a auditoria de algoritmos e sistemas de contabilidade ainda é um ponto cego. A crise paraguaia serve como um alerta para que o BC brasileiro intensifique a fiscalização de softwares de gestão financeira usados por bancos médios e pequenos, especialmente aqueles com operações em países vizinhos.
Outro ponto de atenção é o impacto no comércio bilateral. O Paraguai é um dos principais fornecedores de energia elétrica da usina de Itaipu para o Brasil, e a instabilidade financeira pode afetar os pagamentos e investimentos no setor energético. Além disso, a crise pode gerar um aumento da demanda por dólar na região, pressionando o câmbio e impactando exportadores brasileiros.
**Fontes**
As informações foram obtidas a partir de comunicados oficiais do Banco Central do Paraguai (BCP), do governo paraguaio, de reportagens do jornal paraguaio ABC Color e do jornal brasileiro Valor Econômico. Dados sobre investimentos brasileiros no Paraguai foram consultados no relatório de comércio exterior da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A análise sobre riscos de sistemas de TI legados baseia-se em artigos técnicos do Banco de Compensações Internacionais (BIS) e em entrevistas de especialistas em segurança cibernética publicadas pela Reuters.
Por Renan Filho · 2026-11-05