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Uma crise bancária silenciosa, mas profunda, abalou o sistema financeiro do Paraguai e culminou na renúncia do presidente do Banco Central do país (BCP), José Cantero, na última semana. A saída ocorre em meio a uma onda de intervenções em cooperativas de crédito, liquidações de instituições financeiras e denúncias de falta de transparência na supervisão bancária. Embora o governo paraguaio tente minimizar o episódio, o caso expõe fragilidades estruturais que podem ter repercussões em toda a América do Sul, especialmente para o Brasil, maior parceiro comercial do país.
**Contexto**
A crise começou a ganhar contornos preocupantes no início deste ano, quando o Banco Central do Paraguai realizou intervenções em cooperativas de crédito que somavam milhares de associados, principalmente nos departamentos de Alto Paraná e Itapúa, regiões de forte presença de brasileiros e de integração econômica com o Brasil. As cooperativas, que operavam à margem da regulação tradicional, ofereciam juros atrativos e atuavam como mini-bancos para pequenos comerciantes e produtores rurais.
O problema se agravou com a descoberta de que algumas dessas instituições estavam insolventes há meses, sem que o órgão regulador tivesse tomado medidas preventivas. Relatórios internos, vazados à imprensa paraguaia, indicam que o BCP tinha conhecimento de irregularidades contábeis desde o ano anterior, mas adiou decisões por pressão política e por temor de um efeito dominó.
A renúncia de Cantero, que ocupava o cargo desde 2020, veio após uma reunião tensa com o presidente Santiago Peña, na qual o chefe do Executivo cobrou explicações sobre a lentidão nas respostas e sobre a exposição do sistema a riscos sistêmicos. Em seu discurso de despedida, Cantero admitiu “erros de avaliação” e citou o “ambiente de incerteza” como motivo de sua saída.
**Análise**
A saída do comando do BCP é mais do que uma troca de nomes. Ela revela uma disputa de poder entre o setor financeiro tradicional e as cooperativas, que cresceram de forma desordenada nos últimos anos. O Paraguai vive um paradoxo: enquanto a economia macro apresenta indicadores positivos, com crescimento do PIB impulsionado pelo agronegócio, o sistema financeiro doméstico mostra rachaduras perigosas.
A falta de uma supervisão robusta permitiu que cooperativas operassem com reservas mínimas, empréstimos sem garantia real e até esquemas de pirâmide disfarçados de crédito consignado. Quando o BCP decidiu agir, o estrago já estava feito: milhares de poupadores perderam depósitos e o ambiente de confiança se deteriorou.
Para o Brasil, o impacto é relevante por dois caminhos. Primeiro, o comércio bilateral, especialmente nos setores de eletrônicos, agronegócio e combustíveis, depende de linhas de crédito transfronteiriças. Com bancos paraguaios mais cautelosos, o financiamento ao comércio pode encarecer. Segundo, o caso serve de alerta para o sistema financeiro brasileiro, que também assiste à expansão de cooperativas e fintechs com menos rigor regulatório.
O novo presidente do BCP, ainda não anunciado, terá a difícil missão de restaurar a credibilidade sem provocar uma corrida bancária. Medidas como injeção de liquidez, fusão de cooperativas e revisão da lei de entidades financeiras estão no centro do debate. Mas, sem uma reforma estrutural, a crise pode se arrastar.
Historicamente, o Paraguai sempre foi visto como um país de economia pequena e estável, com baixa dívida pública e inflação controlada. No entanto, a crise atual demonstra que a estabilidade nominal não é suficiente quando existe uma bolha de crédito não regulado. O efeito contágio para o Brasil é limitado, mas a interconexão comercial e a presença de investidores brasileiros no setor imobiliário e no agronegócio paraguaio criam canais de transmissão.
O episódio também deve servir de aprendizado para os órgãos reguladores do Cone Sul. A rápida digitalização financeira e o surgimento de novas modalidades de crédito exigem supervisão em tempo real. O Paraguai aprendeu da pior forma possível que a complacência regulatória cobra um preço alto.
**Fontes**
A reportagem baseia-se em informações públicas divulgadas pelo Banco Central do Paraguai, comunicados oficiais da Presidência da República do Paraguai, além de matérias da imprensa internacional e regional, como o jornal ABC Color e a agência Reuters. Ainda não foram divulgados todos os detalhes do processo de sucessão no BCP, e o novo presidente deverá ser nomeado nas próximas semanas.
Por Renan Filho · 2026-11-05