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Crimes do século 21 expõem a falência do Estado brasileiro na segurança pública

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

Enquanto o crime organizado migra para ciberataques, roubo de cargas via aplicativo e lavagem de criptomoedas, as polícias brasileiras ainda operam com lógica do século passado — e o cidadão paga a conta.

A manchete poderia ser de um filme distópico, mas é a realidade brasileira de 2026: facções usam inteligência artificial para planejar assaltos a bancos, enquanto o Estado ainda discute a criação de um banco de dados unificado de boletins de ocorrência. O crime evoluiu, a lei evoluiu, mas o aparelho de segurança pública parou no tempo. Não é exagero afirmar que o Brasil vive uma crise de segurança híbrida: o crime de rua, com sua violência brutal, e o crime de quarta geração, que age nas sombras do ciberespaço, muitas vezes com a conivência de dentro do próprio sistema.

O diagnóstico não é novo, mas a urgência mudou de patamar. Em 2024, o Brasil registrou um ataque cibernético a cada 30 segundos, segundo a consultoria ISH Tecnologia. As polícias civis, porém, ainda dependem de escutas telefônicas autorizadas e de informantes locais para investigar — métodos que não alcançam quadrilhas que usam a deep web para contratar assassinos ou que lavam dinheiro via exchanges de criptomoedas. Um exemplo recente é a Operação Cyber Rodeio, deflagrada em 2025, que desmantelou uma rede de estelionato virtual que movimentou R$ 2,3 bilhões em três anos, usando contas de laranjas e criptoativos. A polícia conseguiu, sim, mas depois de meses de investigação e com apoio de agências dos EUA, o que revela a dependência tecnológica e a falta de estrutura própria.

O problema central é que o Estado brasileiro não resolveu as questões estruturais do século XX — como o déficit de presídios, a ausência de políticas de prevenção ao crime e a corrupção policial — e agora precisa enfrentar crimes que não existiam na Constituição de 1988. Enquanto isso, o cidadão comum não sabe se o risco maior está em andar com o celular na rua ou em ter os dados bancários clonados em uma compra online. A sensação de insegurança é total, e a resposta estatal, parcial.

Por que isso importa? Porque a segurança pública é a base de qualquer economia de livre mercado. Sem segurança jurídica e física, o empreendedor não investe, o consumidor não consome, e o Estado gasta mais com repressão do que com prevenção. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil gasta 1,3% do PIB com segurança, mas esse número esconde uma ineficiência crônica: a taxa de esclarecimento de homicídios é de apenas 34%, contra 80% nos países da OCDE. Ou seja, o crime compensa, e o mercado ilegal sabe disso.

Na visão liberal, a solução não passa apenas por mais armas ou mais polícia, mas por repensar o modelo de gestão. A integração entre as polícias, o uso de tecnologia de ponta — como reconhecimento facial e análise preditiva — e a desburocratização do processo penal são passos urgentes. O Brasil precisa de um choque de eficiência, não de um choque de autoridade. A experiência de estados como Goiás, que reduziu os homicídios em 60% na última década com gestão por metas e integração de dados, prova que é possível, mas exige vontade política e reformas estruturais.

Não se trata de defender a privatização da segurança pública — embora a segurança privada já seja uma realidade para 70% dos brasileiros de renda média alta —, mas de reconhecer que o monopólio estatal da violência fracassou na sua missão mais básica. O Estado, que deveria ser o garantidor da ordem, tornou-se o principal violador de direitos quando prende mal e solta pior, e quando não protege o cidadão de bem que paga impostos.

O contraponto, claro, vem de setores que defendem mais investimento em políticas sociais e menos em repressão. Há quem argumente que a tecnologia é apenas uma ferramenta e que o problema de fundo é a desigualdade. Mas essa visão, embora tenha seu valor, ignora que o crime organizado se aproveita da fragilidade institucional para operar como uma empresa, com hierarquia, logística e até marketing. Enquanto o Estado discutir ideologias, o crime age — e lucra.

A questão não é se o Brasil vai enfrentar o crime do século XXI, mas quando vai acordar para o fato de que a segurança pública é um problema de gestão, não de falta de leis. O arcabouço jurídico já prevê o crime organizado e a lavagem de dinheiro, mas a aplicação é morosa e seletiva. O cidadão de bem, que acorda cedo para trabalhar, não pode ser refém de uma guerra que o Estado não tem coragem de declarar.

A liberdade individual, pilar de qualquer sociedade próspera, está diretamente ligada à segurança. Sem ela, não há empreendedorismo, não há inovação, não há capital de risco. O Brasil precisa de um choque de realismo: ou o Estado moderniza sua estrutura de segurança, ou continuará perdendo a guerra para um inimigo que não usa farda, mas que domina a tecnologia melhor do que a maioria dos governantes.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.