**Lead**
Uma inversão silenciosa no mercado de crédito brasileiro vem chamando a atenção de economistas e analistas financeiros: enquanto os tomadores de maior renda conseguem contratar novos empréstimos mesmo com taxas de juros elevadas, os brasileiros mais pobres estão perdendo acesso ao crédito, que se torna cada vez mais escasso e caro para esse público. O fenômeno, observado nos últimos meses, reflete uma combinação de política monetária restritiva, aversão ao risco dos bancos e o aprofundamento da desigualdade no sistema financeiro nacional.
**Contexto**
O Banco Central mantém a taxa Selic em patamares elevados há mais de um ano, o que encarece o custo do dinheiro para toda a economia. Nesse ambiente, as instituições financeiras adotam critérios mais rigorosos na concessão de crédito. Dados de mercado indicam que, para as classes de renda mais alta — geralmente com histórico de bom pagador e garantias reais —, a oferta de crédito pessoal, financiamento imobiliário e cartão de crédito premium continua a crescer, ainda que com juros altos. Já para as famílias de baixa renda, que dependem de crédito consignado, cheque especial e cartões de crédito básicos, o volume de novas operações recuou de forma significativa.
Levantamentos setoriais mostram que a inadimplência entre os mais pobres subiu nos últimos trimestres, o que levou os bancos a reduzirem limites e a exigirem garantias adicionais. Ao mesmo tempo, os consumidores de alta renda, com patrimônio e renda estável, continuam a ser cortejados com ofertas de crédito rotativo e linhas de investimento alavancado. A segmentação do mercado de crédito, embora não seja nova, ganhou contornos mais nítidos com a manutenção dos juros altos.
**Análise**
A tendência tem implicações profundas para a economia real. O encolhimento do crédito para os mais pobres reduz a capacidade de consumo e investimento dessas famílias, agravando a desigualdade e freando a recuperação do mercado interno. Por outro lado, a expansão do crédito caro entre os ricos pode alimentar bolhas em ativos financeiros e imobiliários, sem gerar o efeito multiplicador que o crédito popular proporciona.
Especialistas apontam que o movimento reflete uma lógica de curto prazo dos bancos, que priorizam a rentabilidade sobre a inclusão financeira. Com a Selic elevada, o spread bancário — diferença entre o custo de captação e a taxa cobrada do cliente — se mantém alto, mas os bancos preferem concentrar a oferta em clientes de menor risco, mesmo que isso signifique excluir grande parte da população. A consequência é um sistema de crédito de duas velocidades: um para quem já tem recursos e outro para quem precisa de crédito para sobreviver ou empreender.
A situação também levanta questionamentos sobre a eficácia das políticas de crédito direcionado, como o consignado do INSS e o crédito rural, que historicamente atendem aos mais pobres. Embora esses programas tenham se mantido estáveis, a redução do crédito livre para baixa renda anula parte dos avanços. Sem uma mudança na política monetária ou na regulação bancária, a tendência deve persistir enquanto os juros permanecerem altos.
**Fontes**
As informações deste artigo foram baseadas em análises de economistas do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE), relatórios do Banco Central do Brasil sobre o mercado de crédito, e estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre desigualdade financeira. Nenhum número específico foi citado por se tratar de tendência observada em múltiplos indicadores, sem consenso sobre valores exatos no período analisado.
Por Renan Filho · 2026-10-13