FORTIS
← FORTIS
Esportes

Crédito caro avança entre ricos e recua entre os mais pobres no Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-13

Enquanto famílias de alta renda ampliam acesso a linhas de crédito mesmo com juros elevados, a população de menor renda reduz contratações por endividamento e restrição bancária. Tendência acentua desigualdade no sistema financeiro.

**Lead**

A desigualdade no acesso ao crédito no Brasil ganhou um novo capítulo: enquanto os brasileiros de renda mais alta continuam contratando financiamentos e empréstimos mesmo diante do custo elevado do dinheiro, as camadas de menor renda reduziram a tomada de crédito no mesmo período. O movimento, observado em dados recentes do sistema financeiro nacional, reflete não apenas a cautela das famílias mais pobres, mas também a seletividade dos bancos em um cenário de inadimplência alta e juros básicos ainda pressionados.

**Contexto**

A partir de 2025, o Banco Central passou a conviver com uma nova fase do ciclo monetário. Depois de um período de queda, a taxa Selic voltou a subir, elevando o custo das linhas de crédito para pessoas físicas e empresas. Em um ambiente de juros altos, o comportamento esperado seria uma retração generalizada do crédito. O que os números mostram, no entanto, é um movimento assimétrico: o estoque de crédito para segmentos de alta renda seguiu crescendo, enquanto as contratações entre os mais pobres — especialmente nas faixas de menor score e renda — diminuíram em termos reais.

Entre os fatores que explicam essa diferença está a lógica da concessão bancária. Instituições financeiras tendem a priorizar clientes com garantias, histórico de relacionamento e capacidade comprovada de pagamento. Para esses perfis, mesmo com juros elevados, o risco percebido é menor. Já para a população de baixa renda, que depende de modalidades como consignado do INSS, microcrédito e crédito pessoal sem garantia, a elevação da taxa básica reduz a atratividade das operações e aumenta a exigência de análise de crédito. O resultado é um racionamento silencioso: quem mais precisa de crédito acaba tendo menos acesso a ele.

Outro componente relevante é o nível de endividamento. Pesquisas de endividamento das famílias brasileiras, divulgadas por entidades setoriais ao longo dos últimos meses, mostram que os lares de menor renda comprometem parcela crescente da renda com dívidas já contratadas — muitas delas contraídas em momentos de aperto, como o período pós-pandemia. Com menos espaço no orçamento para novas parcelas, esses consumidores recuam, enquanto famílias de renda alta mantêm margem para contratar novos financiamentos, inclusive para aquisição de veículos, imóveis e consumo de bens de maior valor.

Dados consolidados do sistema financeiro indicam que o saldo das operações de crédito para pessoas físicas de alta renda cresceu em ritmo superior ao verificado nas faixas de renda mais baixa em 2025. Parte desse crescimento está ligada ao financiamento imobiliário e ao crédito consignado para servidores públicos de salários elevados, que permanece sendo uma das modalidades mais baratas do mercado. No outro extremo, o crédito consignado para beneficiários do INSS — uma das principais formas de acesso ao crédito para aposentados e pensionistas de menor renda — sofreu com revisões normativas, redução da margem consignável e maior rigor na avaliação de risco, reduzindo o volume de novas contratações.

**Análise**

A dinâmica recente escancara um paradoxo do sistema financeiro brasileiro: os juros altos protegem os bancos contra a inadimplência, mas também concentram o crédito justamente em quem menos precisa. Do ponto de vista macroeconômico, isso tem duplo efeito. Por um lado, sustenta a lucratividade das instituições financeiras, que conseguem manter margens elevadas com operações direcionadas a públicos de menor risco. Por outro, enfraquece o papel do crédito como ferramenta de inclusão produtiva e mobilidade social, já que os brasileiros mais pobres ficam dependentes do crédito rotativo e de modalidades emergenciais com taxas ainda mais altas.

O movimento também antecipa um impacto sobre o consumo. Como as famílias de baixa renda respondem por parcela relevante do consumo no varejo brasileiro, a retração do crédito para esse público tende a se refletir em vendas menores de eletrodomésticos, móveis e outros itens de maior valor. Nos próximos trimestres, caso a Selic permaneça em patamar elevado ou volte a subir, a tendência é que a distância entre os dois extremos de renda se aprofunde: de um lado, uma carteira de crédito robusta para clientes do segmento private e alta renda; de outro, um crédito cada vez mais restrito para a base da pirâmide.

**Fontes**

Banco Central do Brasil — Relatórios de Estatísticas de Crédito (2025-2026) Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) — Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — Pesquisa de Orçamentos Familiares e dados conjunturais Federação Brasileira de Bancos (Febraban) — Relatórios de desempenho do setor financeiro

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.