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A cidade de São Paulo registrou, nos últimos 48 dias, a localização de 14 corpos em diferentes regiões, a maioria com marcas de violência extrema. A Polícia Civil abriu inquéritos para apurar se os homicídios têm relação com o chamado 'tribunal do crime' — prática em que facções criminosas julgam e executam pessoas acusadas de desrespeitar regras internas, como roubo, dívidas com o tráfico ou delação. Até o momento, nenhum suspeito foi preso, e as investigações correm sob sigilo.
**Contexto**
Os corpos foram encontrados entre o final de agosto e o início de outubro de 2026, em bairros como Brasilândia, Jardim Ângela, Cidade Tiradentes e Parque Santo Antônio. As vítimas são, em sua maioria, homens jovens, com idades entre 18 e 35 anos. Em pelo menos oito casos, os corpos apresentavam sinais de tortura, como perfurações por arma branca, queimaduras e fraturas expostas. Em três ocorrências, as mãos das vítimas estavam amarradas com cadarços ou fios elétricos, o que, segundo investigadores, é um padrão típico de execuções sumárias.
A prática do 'tribunal do crime' não é nova no estado de São Paulo. Desde o início dos anos 2000, facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) utilizam esse mecanismo para punir integrantes que descumprem o código interno. No entanto, o volume de corpos encontrados em um intervalo tão curto acendeu o alerta das autoridades. Dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) indicam que, em 2025, a capital registrou uma média de 3,2 corpos por mês com características semelhantes. O número atual — 14 em 48 dias — representa um aumento de mais de 200% em relação à média histórica.
A Delegacia de Homicídios da Capital (DHPP) abriu um procedimento específico para cruzar informações de todas as ocorrências. Peritos do Instituto de Criminalística (IC) analisam objetos encontrados junto aos corpos, como celulares, documentos e embalagens de entorpecentes. Em um dos casos, um bilhete manuscrito foi localizado no bolso de uma vítima, com a frase: 'Quem rouba da firma morre'. A polícia não confirma se o bilhete tem relação direta com as execuções, mas a linguagem é compatível com a usada por facções.
**Análise**
O aumento de corpos com marcas de execução em São Paulo não é um fenômeno isolado. Especialistas em segurança pública ouvidos pela imprensa apontam que o crescimento pode estar ligado a disputas internas dentro de facções criminosas, especialmente após a morte de lideranças regionais ou a quebra de acordos territoriais. Quando um grupo perde o controle de uma área, os 'julgamentos' se intensificam como forma de reafirmar poder e eliminar traidores.
Outro fator relevante é a sobrecarga do sistema de investigação. A DHPP tem cerca de 80 delegados para atender toda a capital, que registra mais de 1.200 homicídios por ano. Com o aumento de casos complexos — que exigem análise de DNA, geolocalização de celulares e oitiva de testemunhas — o tempo de elucidação pode se estender por meses. Até o momento, nenhum dos 14 inquéritos foi concluído.
A possível ligação com o 'tribunal do crime' também levanta questões sobre a eficácia das políticas de ressocialização e do sistema prisional. Muitos dos executados são egressos do sistema penitenciário ou têm passagens por tráfico e roubo. A falta de oportunidades de emprego e o estigma social empurram esses jovens de volta ao crime, onde são submetidos a códigos de conduta rígidos e punições letais.
**Fontes**
As informações foram obtidas com base em boletins de ocorrência registrados na Delegacia de Homicídios da Capital (DHPP), dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) e reportagens de veículos como G1, UOL e Folha de S.Paulo, que acompanham o caso desde o primeiro corpo encontrado. A perícia é realizada pelo Instituto de Criminalística (IC) e pelo Instituto Médico Legal (IML). Nenhum nome de suspeito ou vítima foi divulgado oficialmente até a data de publicação desta notícia.
Por Renan Filho · 2026-10-22