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Ciencia

COP17 chega a acordos sobre textos fundamentais para proteger a natureza; Brasil tem papel central

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-31

Após duas semanas de negociações intensas, a 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) aprovou textos-base que estabelecem metas globais de conservação para a próxima década. O Brasil, anfitrião do evento, foi peça-chave na mediação de consensos sobre financiamento e repartição de benefícios da biodiversidade.

**Lead**

A 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17) encerrou na madrugada deste sábado (31) em Brasília com a aprovação de um pacote de textos fundamentais que definem o rumo da agenda global de proteção da natureza até 2035. Os acordos, costurados após intensas rodadas de negociação, estabelecem metas vinculantes para a conservação de ecossistemas terrestres e marinhos, a redução da poluição por plásticos e a ampliação do financiamento para países em desenvolvimento. O Brasil, que sediou o evento no Estádio Nacional Mané Garrincha, exerceu papel de liderança na mediação dos debates e na construção de pontes entre nações ricas e emergentes.

**Contexto**

A COP17 é a reunião bienal dos 196 países signatários da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), tratado internacional assinado na Eco-92, no Rio de Janeiro. O encontro deste ano era aguardado com expectativa por cientistas e ambientalistas, pois precisava dar continuidade ao Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, aprovado em 2022. Na ocasião, as nações se comprometeram a proteger 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta até 2030 — a chamada meta “30×30” — e a restaurar 30% dos ecossistemas degradados.

Desde a abertura da conferência, em 19 de outubro, as delegações se debruçaram sobre quatro eixos principais: o texto de implementação do marco global, o mecanismo de repartição justa dos benefícios do uso de recursos genéticos (incluindo dados genéticos digitais), a estratégia de mobilização de recursos financeiros e o plano de ação para reduzir pela metade o uso de agrotóxicos até 2030. As negociações foram marcadas por divergências entre o bloco dos países em desenvolvimento, liderado por Brasil, Índia e Indonésia, e as nações desenvolvidas, especialmente União Europeia e Japão, sobre o volume e a previsibilidade dos aportes financeiros.

O Brasil, como anfitrião, propôs uma fórmula de compromisso que estabelece uma meta intermediária de financiamento: US$ 30 bilhões anuais até 2030, com revisão em 2028. O valor, embora inferior aos US$ 50 bilhões reivindicados inicialmente pelo G77+China, foi aceito como base para o texto final, desde que haja um cronograma claro de escalada dos aportes. O acordo também prevê a criação de um fundo específico para a conservação da Amazônia e de outros biomas tropicais, com governança compartilhada entre países doadores e receptores.

**Análise**

A aprovação dos textos fundamentais na COP17 representa um avanço significativo para a agenda ambiental global, especialmente em um contexto geopolítico marcado por tensões comerciais e pela crise climática. Para o Brasil, o resultado é duplamente relevante: além de consolidar sua posição como líder na diplomacia ambiental, o país conseguiu incluir no documento final a prioridade de proteção de florestas tropicais e savanas — biomas que abrigam a maior parte da biodiversidade nacional. O acordo sobre repartição de benefícios dos recursos genéticos, por exemplo, abre caminho para que comunidades indígenas e tradicionais recebam compensações pelo uso de conhecimentos associados à biodiversidade, um tema caro à política externa brasileira.

No entanto, especialistas alertam que os textos aprovados são apenas o primeiro passo. A implementação efetiva das metas dependerá da capacidade dos países de traduzir os compromissos em políticas nacionais e de alocar recursos orçamentários. O Brasil, que já possui o Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) e a Estratégia Nacional de Biodiversidade, terá que atualizar seus marcos legais para incorporar as novas metas. A expectativa é que o governo federal apresente, até o primeiro semestre de 2027, um plano de ação detalhado com indicadores de monitoramento.

Outro ponto de destaque é a inclusão, no texto final, de um parágrafo que reconhece a contribuição das mudanças climáticas para a perda de biodiversidade e estabelece a necessidade de sinergia entre as convenções da ONU sobre clima e biodiversidade. Essa abordagem integrada, defendida pelo Brasil desde a COP15, pode acelerar a implementação de soluções baseadas na natureza, como a restauração de áreas degradadas e a criação de corredores ecológicos, que geram benefícios tanto para o clima quanto para a conservação.

**Fontes**

As informações foram obtidas a partir de comunicados oficiais da Secretaria da Convenção sobre Diversidade Biológica (SCBD), disponíveis no site da CDB (www.cbd.int), e de notas divulgadas pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil. Dados contextuais sobre o Marco Global de Kunming-Montreal foram extraídos de relatórios do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). A análise de impacto baseia-se em artigos científicos publicados na revista Nature Sustainability e em entrevistas coletivas concedidas por delegados durante a conferência, cujas transcrições estão disponíveis no portal oficial da COP17.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.