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Economia

Por que o consumidor brasileiro sente o mercado mais caro do que mostram os índices oficiais?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-13

Apesar da desaceleração da inflação medida pelo IPCA, a percepção de alta nos preços persiste entre os brasileiros. Entenda os fatores que explicam essa diferença.

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O brasileiro médio continua a sentir o bolso apertar no supermercado, no posto de gasolina e na conta de luz, mesmo quando os índices oficiais de inflação apontam para uma desaceleração. Dados recentes do IBGE mostram que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) recuou em relação aos picos de 2022 e 2023, mas a percepção nas ruas é de que os preços continuam subindo em ritmo acelerado. Esse descompasso entre a estatística e a realidade cotidiana tem raízes profundas na forma como a inflação é calculada, na composição da cesta de consumo das diferentes classes sociais e no comportamento psicológico do consumidor diante de aumentos frequentes.

**Contexto**

O IPCA, principal indicador de inflação do país, é calculado com base em uma cesta de produtos e serviços ponderada pelo gasto médio das famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos. Essa cesta inclui desde alimentos e transporte até educação e saúde, mas o peso de cada item varia conforme o perfil de consumo. Para as famílias de baixa renda, itens como alimentação no domicílio, gás de cozinha, transporte público e energia elétrica representam uma parcela muito maior do orçamento do que para as classes mais altas. Nos últimos meses, esses itens registraram altas expressivas — os alimentos, por exemplo, foram pressionados por fatores climáticos e pelo custo de insumos agrícolas, enquanto a gasolina e o diesel acumularam reajustes devido à política de preços da Petrobras e à desvalorização cambial.

Além disso, o IPCA é uma média nacional que suaviza variações regionais. Um consumidor do Norte ou Nordeste pode enfrentar uma inflação muito diferente daquela medida no Sudeste, especialmente em itens como o arroz, o feijão e o óleo de soja, que têm pesos regionais distintos. Pesquisas de percepção realizadas por institutos como a FGV e o Datafolha indicam que a maioria dos brasileiros acredita que os preços subiram mais do que o apontado pelo IPCA nos últimos doze meses. Essa diferença não é apenas subjetiva: estudos do Banco Central mostram que a inflação percebida tende a ser maior que a inflação oficial em períodos de alta concentrada em itens de consumo frequente, como alimentos e combustíveis.

Outro fator relevante é a inflação acumulada. Mesmo que a taxa mensal esteja caindo, os preços absolutos permanecem em patamares elevados. Um consumidor que pagava R$ 5 por um litro de leite há dois anos e hoje paga R$ 7 não se sente aliviado porque a alta mensal caiu de 2% para 0,5% — ele ainda paga 40% a mais. Esse efeito de “memória de preço” faz com que a percepção de carestia perdure muito além do pico inflacionário.

**Análise**

A divergência entre a inflação oficial e a percebida tem implicações diretas para a política econômica e para a confiança do consumidor. Quando o cidadão não vê correspondência entre os números divulgados pelo governo e sua experiência no caixa do supermercado, a credibilidade das instituições é abalada. Isso pode levar a um comportamento de consumo mais cauteloso, com famílias reduzindo gastos não essenciais e aumentando a poupança preventiva, o que, por sua vez, desacelera a economia. Além disso, a percepção de inflação alta alimenta expectativas de novos aumentos, criando um ciclo vicioso: trabalhadores pressionam por reajustes salariais maiores, empresas repassam custos e a inflação real acaba se mantendo elevada.

Para o Banco Central, que utiliza a inflação cheia e os núcleos como referência para a taxa Selic, o descolamento entre o índice e a percepção representa um desafio de comunicação. Se a autoridade monetária sinaliza que a inflação está sob controle, mas a população sente o contrário, a eficácia da política de juros pode ser comprometida. Por isso, o BC tem recorrido a pesquisas de expectativas e a análises de difusão da inflação — que medem a proporção de itens com alta de preços — para calibrar suas decisões. Quando a difusão é alta, mesmo que a média seja baixa, o aperto monetário tende a ser mantido por mais tempo.

Outro ponto crucial é a assimetria de informação. Os índices oficiais captam variações de preços em uma cesta ampla, mas o consumidor comum não compra todos os itens da cesta todos os meses. Ele percebe com mais intensidade os aumentos nos produtos que adquire com frequência — como pão, leite, ovos, gasolina — e tende a ignorar as quedas ou estabilidades em itens que compra raramente, como eletrodomésticos ou roupas. Esse viés de frequência amplifica a sensação de carestia. Além disso, itens como serviços de saúde e educação, que têm peso significativo no IPCA, costumam reajustar uma vez por ano, gerando picos de percepção concentrados em determinados meses.

**Fontes**

As informações aqui apresentadas baseiam-se em dados e relatórios públicos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Fundação Getulio Vargas (FGV), do Banco Central do Brasil e de pesquisas de opinião realizadas por institutos como Datafolha e Ipsos. Análises de economistas de mercado e de instituições financeiras, publicadas em veículos de imprensa de grande circulação, também foram consultadas para contextualizar o fenômeno da divergência entre inflação oficial e percebida.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.