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Por que o consumidor sente o mercado mais caro do que mostram os índices?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-13

A inflação oficial desacelera, mas a percepção do brasileiro nas gôndolas dos supermercados e feiras continua de carestia. Especialistas apontam fatores estruturais e comportamentais que explicam esse descompasso.

**Lead**

O brasileiro que vai ao supermercado ou à feira na primeira quinzena de outubro de 2026 enfrenta um paradoxo: os índices oficiais de inflação mostram desaceleração, mas o carrinho de compras parece cada vez mais pesado. A sensação de que os preços sobem mais rápido do que o salário não é apenas impressão — é o resultado de uma combinação de fatores que vão desde a composição do índice até mudanças no comportamento do consumidor e na estrutura do varejo. Este descompasso entre a inflação percebida e a inflação medida tem implicações diretas na segurança alimentar e no orçamento doméstico, temas que estão no centro do debate econômico atual no país.

**Contexto**

Os índices de preços ao consumidor, como o IPCA, são calculados com base em uma cesta de produtos e serviços que procura refletir os hábitos de consumo de uma família típica. No entanto, essa cesta é uma média — e a média esconde disparidades regionais, de renda e de hábitos. Enquanto a classe de maior renda gasta proporcionalmente mais com serviços, transporte e educação, as famílias de menor renda concentram seus gastos em alimentos, itens de limpeza e higiene — exatamente os produtos que sofreram os maiores reajustes nos últimos anos.

Além disso, o peso de cada item no índice é atualizado com defasagem. Um produto que ganhou importância na mesa do brasileiro pode não ter o peso correspondente na cesta oficial, distorcendo a medição. O resultado é que, para uma parcela significativa da população, a inflação real sentida no bolso é maior do que a divulgada nos noticiários.

Outro fator relevante é a frequência de compra. Alimentos e produtos de limpeza são adquiridos semanalmente ou até diariamente, o que torna o aumento de preços mais perceptível. Já itens como eletrodomésticos, roupas e calçados são comprados esporadicamente, e seus reajustes passam quase despercebidos. Esse fenômeno, conhecido como "saliencia", faz com que o consumidor superestime a inflação dos produtos que compra com mais frequência e subestime a dos demais.

**Analise**

A percepção de carestia não é apenas uma questão psicológica — ela tem consequências concretas. Quando o consumidor acredita que os preços estão subindo de forma descontrolada, ele tende a adiar decisões de compra, a buscar substituições por produtos mais baratos e a pressionar por aumentos salariais. Esse comportamento, por sua vez, pode gerar pressões inflacionárias adicionais, criando um ciclo vicioso que os índices oficiais, muitas vezes, não conseguem captar prontamente.

No caso específico dos alimentos, a volatilidade climática tem sido um dos principais vetores de alta. Secas, enchentes e ondas de calor — eventos cada vez mais frequentes no Brasil — afetam as safras e o transporte de mercadorias. Esses choques de oferta são sentidos imediatamente nas feiras e gôndolas, mas podem levar meses para se refletir nos índices de inflação, que utilizam médias móveis e ajustes sazonais.

Além disso, o varejo brasileiro passa por uma transformação silenciosa. A consolidação de grandes redes atacadistas e a expansão do comércio eletrônico de alimentos mudaram a forma como os preços são formados. O consumidor que antes comparava preços em diferentes lojas físicas agora se depara com uma padronização maior de valores — o que reduz a percepção de "pechincha", mesmo quando há promoções.

Há ainda o impacto da informalidade. Uma parcela significativa dos trabalhadores brasileiros não tem renda formalizada, o que significa que não possui reajustes automáticos ou negociações coletivas que acompanhem a inflação. Para esses trabalhadores, qualquer aumento de preços é um encolhimento direto do poder de compra, independentemente do que dizem os índices oficiais.

**Fontes**

Este artigo foi elaborado com base em informações públicas divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e pela Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), bem como em análises de economistas e entidades de defesa do consumidor publicadas na imprensa nacional. Os dados e tendências aqui descritos refletem o ambiente econômico observado no país no momento da publicação.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.