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Opinião

Conrado Hübner Mendes: 'Papai, por que você votou no Hitler?' — o dilema da memória e da culpa geracional

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-08

Em artigo contundente, o jurista Conrado Hübner Mendes reflete sobre o peso de explicar às novas gerações as escolhas autoritárias do passado, usando a metáfora do voto em Hitler para discutir a banalização do mal e a responsabilidade histórica no Brasil.

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O jurista e professor da Faculdade de Direito da USP, Conrado Hübner Mendes, publicou um artigo de opinião que rapidamente se tornou referência nos debates sobre memória política e educação democrática. Intitulado 'Papai, por que você votou no Hitler?', o texto aborda o desconforto e a necessidade de pais e educadores explicarem às crianças e jovens como regimes autoritários chegam ao poder, especialmente em contextos onde a democracia parece frágil. Mendes não se refere a um fato específico da Alemanha nazista, mas usa a figura de Hitler como uma metáfora universal para o autoritarismo, convidando o leitor brasileiro a refletir sobre as escolhas políticas recentes no país.

**Contexto**

Conrado Hübner Mendes é uma das vozes mais respeitadas no campo do direito constitucional e da teoria política no Brasil. Doutor pela USP e pós-doutor pela Universidade de Edimburgo, ele é colunista da Folha de S.Paulo e autor de livros sobre judicialização da política e democracia. O artigo em questão foi publicado originalmente na Folha e repercutiu em diversas plataformas, gerando debates acalorados nas redes sociais e entre analistas políticos.

A pergunta que dá título ao texto não é literal. Mendes não está acusando ninguém de ter votado em Hitler, mas sim propondo um exercício de imaginação moral: como um pai ou uma mãe explicaria a um filho, anos depois, que apoiou um regime que cometeu atrocidades? A pergunta serve como gatilho para discutir a responsabilidade individual em processos coletivos de erosão democrática. O jurista argumenta que, no Brasil, a memória do período autoritário recente — a ditadura militar de 1964-1985 — ainda é tratada de forma seletiva, e que muitos dos discursos que sustentaram aquele regime ressurgiram em campanhas políticas recentes.

O artigo também dialoga com a obra da filósofa Hannah Arendt, especialmente o conceito de 'banalidade do mal'. Mendes sugere que o maior perigo para a democracia não está nos grandes vilões, mas na adesão cotidiana e acrítica de cidadãos comuns a discursos de ódio, exclusão e autoritarismo. Ele cita exemplos históricos em que sociedades inteiras foram coniventes com regimes totalitários, e alerta que o Brasil não está imune a esse fenômeno.

**Análise**

A força do texto de Mendes está em sua capacidade de conectar o passado ao presente sem recorrer a simplificações. Ele não faz uma comparação direta entre Hitler e qualquer político brasileiro, mas usa a figura histórica para lembrar que o autoritarismo nunca se apresenta como tal. 'Ninguém acorda um dia e decide votar no mal absoluto', escreve. 'O mal se disfarça de ordem, de segurança, de tradição.' Essa reflexão é especialmente relevante em um momento em que o Brasil discute os limites da liberdade de expressão, o papel das Forças Armadas e a revisão de narrativas sobre a ditadura.

O artigo também toca em um ponto sensível: a educação das crianças para a democracia. Mendes defende que os pais não devem esconder os erros do passado, mas sim explicá-los com honestidade, mostrando como o medo, a desinformação e o desejo de pertencimento podem levar pessoas comuns a apoiar regimes opressores. Ele sugere que o silêncio sobre o autoritarismo é uma forma de cumplicidade, e que a memória ativa é a única garantia de que os erros não se repitam.

A repercussão do artigo mostra o quanto o tema ainda é tabu no Brasil. Enquanto alguns setores elogiaram a coragem de Mendes em tratar do assunto de forma didática, outros o acusaram de 'demonizar' a direita e de fazer 'comparações absurdas'. O próprio autor, em entrevistas posteriores, reforçou que não se trata de comparar, mas de refletir sobre mecanismos psicológicos e sociais que permitem a ascensão de líderes autoritários. 'A pergunta da criança é incômoda porque nos obriga a olhar para o espelho', disse Mendes em uma live.

**Fontes**

- Artigo original de Conrado Hübner Mendes na Folha de S.Paulo - Entrevistas e lives do autor sobre o tema - Obras de Hannah Arendt, especialmente 'Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal' - Debates públicos e reações nas redes sociais ao artigo - Dados históricos sobre a ditadura militar brasileira (1964-1985) e regimes totalitários do século XX

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.