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Cultura

Congresso amplia presença feminina, mas vê avanço antifeminista para Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-08

Câmara e Senado registram recorde de deputadas e senadoras eleitas, enquanto projetos de lei com viés antifeminista ganham força no Legislativo, acendendo alerta entre especialistas e movimentos sociais.

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A composição do Congresso Nacional brasileiro atingiu, nas eleições de 2026, o maior número de mulheres eleitas da história, com um aumento significativo de cadeiras ocupadas por deputadas e senadoras. No entanto, o mesmo pleito que elevou a representatividade feminina também impulsionou uma bancada parlamentar com pautas consideradas antifeministas, que já articula a tramitação de projetos de lei restritivos aos direitos das mulheres. O paradoxo expõe uma disputa cultural profunda no país, onde o avanço numérico de mulheres no poder convive com a reação organizada de setores conservadores.

**Contexto**

O resultado das urnas em outubro de 2026 confirmou uma tendência observada desde as eleições de 2018 e 2022: o crescimento lento, mas consistente, da participação feminina no Legislativo federal. A nova legislatura conta com mais de cem deputadas federais e um número recorde de senadoras, superando pela primeira vez a marca de 20% de representação feminina na Câmara. Esse avanço foi impulsionado por políticas de incentivo, como o fundo eleitoral destinado a candidaturas femininas e a obrigatoriedade de reserva de tempo de rádio e TV para mulheres, além do fortalecimento de movimentos como a Bancada Feminina e a atuação de coletivos partidários.

Paralelamente, a mesma eleição elegeu uma bancada numericamente expressiva de parlamentares alinhados a pautas antifeministas, que incluem a revisão de leis de proteção à mulher, a criminalização do aborto em todos os casos e o combate ao que chamam de “ideologia de gênero” nas escolas. Esses parlamentares, muitos deles ligados a frentes religiosas e conservadoras, já anunciaram a apresentação de projetos que visam endurecer a legislação sobre direitos reprodutivos e limitar políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero.

Dados de organizações como o Observatório da Mulher no Parlamento e o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) indicam que, desde 2023, houve um aumento de propostas legislativas com teor antifeminista, muitas delas arquivadas em legislaturas anteriores, mas que agora ganham novo fôlego com a composição atual. O cenário reflete uma polarização que não se limita ao Congresso, mas que ecoa nas ruas e nas redes sociais, onde movimentos feministas e antifeministas disputam a narrativa sobre o papel da mulher na sociedade brasileira.

**Análise**

O paradoxo entre o aumento da presença feminina e o avanço de pautas antifeministas não é uma contradição, mas sim um reflexo da complexidade do momento político brasileiro. A eleição de mais mulheres para o Congresso não significa, automaticamente, a eleição de mais parlamentares comprometidas com a agenda feminista. Muitas das novas deputadas e senadoras são filiadas a partidos conservadores e defendem posições contrárias a pautas históricas do movimento de mulheres, como a descriminalização do aborto e a ampliação de direitos LGBTQIA+. Isso fragmenta a Bancada Feminina e dificulta a construção de uma frente unificada em defesa de pautas progressistas.

Por outro lado, a reação antifeminista organizada no Legislativo não é um fenômeno isolado. Ela se insere em um contexto global de ascensão de movimentos conservadores que questionam conquistas feministas das últimas décadas, especialmente em temas como autonomia corporal, igualdade salarial e representação política. No Brasil, essa reação ganhou força com a polarização política acentuada desde 2018 e com a influência de lideranças religiosas e digitais que mobilizam uma base eleitoral significativa. A tramitação de projetos como o Estatuto do Nascituro e a revogação de dispositivos da Lei Maria da Penha são exemplos de pautas que voltaram à agenda com força.

Especialistas apontam que o avanço antifeminista no Congresso pode ter impactos concretos na vida das mulheres brasileiras, especialmente as mais vulneráveis. A restrição ao acesso a serviços de saúde reprodutiva, o enfraquecimento de políticas de prevenção à violência doméstica e a exclusão de discussões de gênero nas escolas são algumas das consequências possíveis. Ao mesmo tempo, a presença feminina ampliada no Parlamento, mesmo que dividida, cria oportunidades para que pautas feministas sejam defendidas com mais força, desde que haja articulação política e pressão social.

O cenário coloca um desafio para os movimentos feministas e para a sociedade civil: como transformar o aumento numérico de mulheres no poder em avanços concretos para a igualdade de gênero, em um ambiente político cada vez mais hostil a essas pautas? A resposta passa pela capacidade de mobilização, pela construção de alianças transversais e pela disputa de narrativas no espaço público. O Congresso de 2027 será, sem dúvida, um campo de batalha cultural onde o futuro dos direitos das mulheres no Brasil será decidido.

**Fontes**

- Observatório da Mulher no Parlamento (Câmara dos Deputados) - Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) - Dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a composição do Congresso Nacional - Relatórios da Bancada Feminina no Congresso Nacional

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.