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Ciencia

Presença feminina no Congresso cresce, mas ofensiva antifeminista pressiona pautas de gênero

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-08

Nova legislatura registra maior bancada feminina da história, em meio a articulação de grupos conservadores para frear avanços de direitos das mulheres.

**Lead**

A nova composição do Congresso Nacional, empossada em 2026, registra a maior presença feminina da história, com um número recorde de deputadas e senadoras eleitas. O avanço numérico, no entanto, ocorre em um cenário político marcado por uma ofensiva organizada de setores conservadores contra pautas como igualdade salarial, violência obstétrica, licença parental e participação feminina na política. Especialistas ouvidas por veículos de imprensa apontam para um paradoxo: nunca houve tantas mulheres no parlamento brasileiro — e, ao mesmo tempo, a agenda antifeminista nunca esteve tão articulada no Congresso.

**Contexto**

O crescimento da bancada feminina é resultado de décadas de mobilização social e de mudanças institucionais, como a política de cotas de gênero para candidaturas e a destinação obrigatória de recursos do fundo eleitoral para candidaturas femininas. Apesar das barreiras persistentes — incluindo subfinanciamento, violência política de gênero e menor tempo de rádio e TV nas campanhas —, o número de eleitas superou o de todas as legislaturas anteriores. Organizações como a ONU Mulheres e o coletivo "Elas no Poder" celebram o avanço quantitativo, mas alertam que a eleição é apenas o primeiro passo.

A eleição de uma bancada feminina recorde ocorre em um contexto de fortalecimento de movimentos sociais, mas também de reação conservadora. Nos últimos anos, o Congresso tem sido palco de debates acirrados em torno de projetos que afetam diretamente os direitos das mulheres. Entre eles estão a proibição do aborto em casos de estupro, a restrição a conteúdos de educação sexual nas escolas e a tentativa de dificultar o acesso de mulheres trans a espaços destinados ao público feminino. Essas propostas avançaram em comissões e no plenário, com o apoio de frentes parlamentares autodenominadas "pró-vida" e "pró-família".

**Análise**

A ampliação da presença feminina no Legislativo não se traduz automaticamente em avanço da pauta de gênero. Pesquisas eleitorais e acadêmicas mostram que a composição partidária e ideológica das parlamentares eleitas é heterogênea: parte da nova bancada é alinhada a pautas conservadoras, o que torna inviável a ideia de que mais mulheres no parlamento signifiquem automaticamente mais direitos para as mulheres. O fenômeno brasileiro não é isolado, mas tem contornos particulares pela força do bolsonarismo e do evangélico político no país.

O avanço antifeminista, segundo analistas, é alimentado por uma combinação de fatores: crescimento de lideranças religiosas no Legislativo, uso intenso de redes sociais para mobilização de base e financiamento de institutos e ONGs conservadoras com atuação global. Esses grupos atuam não apenas para impedir a aprovação de novas leis, mas também para revisar direitos já conquistados, como o acesso à pílula do dia seguinte, o protocolo de atendimento a vítimas de violência sexual e a aplicação da Lei Maria da Penha.

O impacto dessa disputa vai além do campo político. A agenda antifeminista influencia a formulação de políticas públicas nas áreas de saúde, educação e assistência social, e tem efeitos diretos sobre a vida das mulheres mais pobres, que dependem do SUS e de programas sociais. Ao mesmo tempo, a presença feminina no Congresso abre possibilidades de enfrentamento: a bancada feminina ampliada, ainda que heterogênea, pode ser um ponto de apoio para avanços futuros, especialmente se houver articulação com movimentos sociais e com o sistema de justiça.

No campo da Ciência, a discussão é especialmente relevante porque os argumentos usados para justificar propostas antifeministas recorrem frequentemente a uma leitura biológica e religiosa sobre diferenças entre homens e mulheres. Pesquisadoras brasileiras da área de estudos de gênero, a exemplo das cientistas da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, têm alertado que a negação do conceito de gênero e a tentativa de descaracterizar políticas afirmativas se apoiam em uma distorção da produção científica. A comunidade acadêmica, por sua vez, tem respondido com estudos e manifestações públicas, defendendo que políticas públicas baseadas em evidências e na escuta de mulheres são mais eficazes no combate à desigualdade e à violência.

**Fontes**

As informações deste texto foram produzidas com base em dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), relatórios da ONU Mulheres e da União Interparlamentar sobre participação feminina na política, além de estudos de cientistas políticas brasileiras reunidos em publicações da Associação Brasileira de Ciência Política e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais. A menção a projetos em tramitação foi feita a partir de registros públicos da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, sem indicação de números ou nomes de parlamentares para evitar o uso de informações não verificadas.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.