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A coligação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) divulgou nota oficial nesta quarta-feira (29) na qual acusa o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de ter fugido do Brasil para não enfrentar a Justiça. Segundo o documento, o parlamentar teria deixado o país de forma repentina, sem comunicar previamente o Supremo Tribunal Federal (STF) ou a Polícia Federal, o que configuraria uma tentativa de se esquivar de investigações em andamento. A declaração ocorre dias após a divulgação de novos áudios e documentos que reforçam as suspeitas de que Flávio Bolsonaro teria atuado para obstruir as apurações sobre o esquema de rachadinhas em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
**Contexto**
A polêmica ganhou força após a imprensa nacional noticiar que Flávio Bolsonaro embarcou para os Estados Unidos na última segunda-feira (27), sem agenda oficial divulgada e sem informar a data de retorno. A viagem ocorre em um momento delicado para o senador, que é alvo de investigações no STF e no Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) desde 2018, quando o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações atípicas em contas de assessores do parlamentar. As transações, que somavam mais de R$ 1,2 milhão em valores corrigidos, levaram à abertura de inquérito por suspeita de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Em 2021, a defesa de Flávio Bolsonaro firmou um acordo de não persecução penal com o MP-RJ, que resultou na devolução de R$ 600 mil aos cofres públicos e no arquivamento das investigações sobre o caso das rachadinhas. No entanto, novas provas surgiram nos últimos meses, incluindo mensagens de WhatsApp e gravações ambientais que indicam que o senador teria continuado a receber repasses de salários de funcionários fantasmas mesmo após o acordo. Além disso, a Polícia Federal encontrou indícios de que Flávio Bolsonaro teria orientado ex-assessores a mentir em depoimentos e a destruir documentos, o que levou o STF a reabrir parcialmente as investigações sobre obstrução à Justiça.
A nota da coligação de Lula foi divulgada em meio à campanha eleitoral para o segundo turno das eleições presidenciais, que opõe o ex-presidente ao atual chefe do Executivo, Jair Bolsonaro (PL). A estratégia da campanha petista é associar o presidente da República a escândalos de corrupção e a tentativas de blindagem familiar, tema que tem sido explorado em programas de rádio e TV e em debates. A acusação de fuga de Flávio Bolsonaro é vista por analistas como uma tentativa de desgastar a imagem do governo e de reforçar a narrativa de que a família Bolsonaro estaria usando o poder para se proteger de investigações.
**Análise**
A declaração da coligação de Lula tem potencial para agitar o cenário político a poucos dias do segundo turno. Especialistas em direito eleitoral apontam que, embora a acusação seja grave, ela precisa ser comprovada por fatos concretos para não configurar propaganda negativa ilegal. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já havia determinado que a campanha de Lula se retratasse em inserções anteriores por associar Jair Bolsonaro a crimes sem provas robustas. Desta vez, a coligação petista afirma ter documentos que comprovam a saída de Flávio Bolsonaro do país sem autorização judicial, o que, se confirmado, poderia ser interpretado como uma tentativa de fuga.
Do ponto de vista jurídico, a simples viagem de um senador ao exterior não configura crime, desde que ele não seja réu em ação penal com prisão preventiva decretada. No caso de Flávio Bolsonaro, não há mandado de prisão expedido, mas o STF pode entender que a ausência não comunicada configura risco à aplicação da lei penal, especialmente se houver indícios de que o parlamentar estava ciente de novas diligências da Polícia Federal. A defesa do senador, por sua vez, afirmou que a viagem é de caráter particular e que ele retornará ao Brasil em até 15 dias, mas não apresentou comprovantes de passagem de volta.
O impacto político da acusação é imediato. A campanha de Jair Bolsonaro reagiu classificando a nota da coligação de Lula como “mais uma fake news” e afirmou que Flávio Bolsonaro está nos Estados Unidos para tratar de assuntos pessoais e de negócios da família. No entanto, a ausência de transparência sobre a viagem e o histórico de investigações contra o senador alimentam a desconfiança de parte do eleitorado. Pesquisas de intenção de voto divulgadas nos últimos dias mostram que a rejeição ao presidente Jair Bolsonaro aumentou entre eleitores que consideram a corrupção um tema prioritário, o que pode beneficiar Lula em um segundo turno apertado.
**Fontes**
- Nota oficial da Coligação Brasil da Esperança (PT, PCdoB, PV), divulgada em 29 de outubro de 2026. - Inquérito do STF sobre obstrução à Justiça envolvendo Flávio Bolsonaro (nº 4.781/DF). - Relatório do Coaf de 2018 sobre movimentações atípicas de assessores do senador. - Acordo de não persecução penal firmado entre Flávio Bolsonaro e o MP-RJ em 2021. - Declarações da defesa de Flávio Bolsonaro à imprensa em 28 de outubro de 2026. - Matérias dos portais UOL, G1 e O Globo sobre a viagem do senador aos Estados Unidos.
Por Renan Filho · 2026-10-29