**Lead**
O colesterol LDL, popularmente conhecido como “colesterol ruim”, é um dos principais marcadores de risco para infarto e acidente vascular cerebral. No entanto, um número crescente de estudos aponta que ter o LDL dentro da faixa considerada “normal” pelos exames de rotina não é garantia de proteção. No Brasil, onde as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte, essa falsa sensação de segurança pode estar contribuindo para que milhares de pessoas não adotem medidas preventivas adequadas. A questão central não é apenas o número absoluto de LDL, mas a presença de outros fatores que, combinados, elevam o risco mesmo quando o colesterol parece estar sob controle.
**Contexto**
Tradicionalmente, os laboratórios e as diretrizes médicas classificam o LDL abaixo de 130 mg/dL como “desejável” para a população geral, e abaixo de 100 mg/dL para pessoas com risco moderado. Para quem já teve um evento cardiovascular ou tem diabetes, o alvo costuma ser ainda mais baixo, em torno de 70 mg/dL ou menos. Contudo, pesquisas recentes indicam que esses valores de referência podem não ser suficientes para todos. Um estudo de grande escala publicado em periódico internacional de cardiologia mostrou que indivíduos com LDL entre 100 e 130 mg/dL, mas com outros fatores de risco — como pressão alta, tabagismo, obesidade ou histórico familiar — apresentaram incidência de infarto significativamente maior do que aqueles com LDL abaixo de 70 mg/dL, mesmo ajustando para outros fatores.
No Brasil, a realidade é ainda mais preocupante. Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 30% dos adultos têm colesterol elevado, mas muitos desconhecem a condição. Além disso, a dieta rica em gorduras saturadas e ultraprocessados, combinada com o sedentarismo, faz com que o perfil lipídico da população seja desfavorável. O que muitos não sabem é que o colesterol LDL “normal” pode esconder um risco aumentado quando se considera a qualidade das partículas de LDL. Partículas pequenas e densas de LDL são mais aterogênicas — ou seja, mais propensas a penetrar na parede das artérias e formar placas — do que partículas grandes e leves, mesmo que a concentração total de LDL seja a mesma.
Outro ponto frequentemente ignorado é o papel do colesterol não-HDL, que inclui todas as lipoproteínas aterogênicas (LDL, VLDL e remanescentes). Estudos mostram que o colesterol não-HDL é um preditor mais forte de eventos cardiovasculares do que o LDL isolado. Muitos brasileiros que recebem um resultado de LDL “normal” podem ter um colesterol não-HDL elevado, especialmente se tiverem triglicerídeos altos. A medição da apolipoproteína B (apoB), que conta o número de partículas aterogênicas, também é um marcador mais preciso, mas raramente é solicitada nos exames de rotina no país.
**Análise**
A persistência do risco cardiovascular mesmo com LDL “normal” tem implicações diretas para a saúde pública brasileira. Em primeiro lugar, reforça a necessidade de uma avaliação mais abrangente do perfil lipídico, que vá além do colesterol total e do LDL calculado pela fórmula de Friedewald. A inclusão de exames como colesterol não-HDL, apoB e lipoproteína(a) — esta última um fator genético de risco independente — poderia identificar um número maior de pessoas que, apesar de terem LDL dentro da faixa, estão em risco elevado.
Em segundo lugar, a abordagem terapêutica precisa ser individualizada. Para pacientes com risco cardiovascular alto ou muito alto — como aqueles com diabetes, doença renal crônica, histórico de infarto ou AVC —, as diretrizes mais recentes da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da American Heart Association recomendam metas de LDL cada vez mais baixas, frequentemente abaixo de 50 mg/dL em casos de muito alto risco. No entanto, muitos médicos ainda se baseiam nos valores antigos de “normalidade”, deixando de intensificar o tratamento com estatinas, ezetimiba ou inibidores de PCSK9 quando necessário.
Além disso, o estilo de vida continua sendo a base da prevenção. Mesmo com colesterol “normal”, uma dieta rica em fibras, gorduras insaturadas (como azeite, abacate, castanhas) e pobre em açúcares e gorduras trans pode reduzir a inflamação e melhorar a função endotelial. O exercício físico regular, especialmente o aeróbico, aumenta o HDL (colesterol “bom”) e melhora o perfil das partículas de LDL. O controle do estresse e do sono também influencia os níveis de cortisol e a saúde vascular.
Por fim, a conscientização da população é fundamental. Muitas pessoas acreditam que, por terem colesterol “normal” no exame anual, estão imunes a infartos. Essa percepção equivocada pode atrasar a procura por avaliação médica mais detalhada e a adoção de mudanças no estilo de vida. Campanhas educativas que expliquem a diferença entre colesterol total, LDL, não-HDL e apoB, e que destaquem a importância de fatores de risco não lipídicos, poderiam salvar vidas.
**Fontes**
- Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) – Diretrizes de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose. - American Heart Association (AHA) – Declaração científica sobre colesterol não-HDL e apolipoproteína B. - Estudos publicados no *New England Journal of Medicine* e *Journal of the American College of Cardiology* sobre risco residual em pacientes com LDL “normal”. - Ministério da Saúde – Vigitel Brasil 2023: fatores de risco e proteção para doenças crônicas.
Por Renan Filho · 2026-10-15