**Lead**
A maioria dos empresários brasileiros considera o transporte a principal dificuldade de infraestrutura no país, segundo levantamento recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O dado reforça um diagnóstico histórico: a logística deficiente encarece a produção, reduz a competitividade internacional e trava investimentos. O estudo, que ouviu executivos de diferentes portes e setores, mostra que o problema é transversal e atinge tanto o transporte rodoviário quanto o ferroviário, portuário e aeroportuário.
**Contexto**
A pesquisa da CNI, realizada periodicamente para medir a percepção do setor produtivo sobre a infraestrutura nacional, aponta que o transporte lidera o ranking de reclamações há anos. Em edições anteriores, o item já figurava entre os três maiores gargalos, mas agora consolidou-se como o principal. O levantamento considera aspectos como qualidade das rodovias, capacidade dos portos, integração multimodal e custos logísticos.
O Brasil possui uma matriz de transporte fortemente dependente do modal rodoviário, responsável por cerca de 60% do deslocamento de cargas. No entanto, a malha viária apresenta sérios problemas de conservação: buracos, sinalização deficiente e falta de duplicação em trechos estratégicos. Além disso, a burocracia nos portos e a baixa capilaridade das ferrovias agravam o cenário. A CNI destaca que, sem investimentos consistentes, o país perde competitividade frente a concorrentes como China, Estados Unidos e até mesmo vizinhos como Chile e Colômbia.
O levantamento também revela que outros itens de infraestrutura, como energia elétrica e telecomunicações, têm melhorado na percepção dos empresários, mas o transporte permanece como ponto crítico. A insatisfação é maior entre indústrias de transformação, agronegócio e comércio exterior, setores que dependem de escoamento eficiente para manter margens.
**Análise**
A persistência do transporte como principal dificuldade de infraestrutura tem implicações diretas sobre a economia brasileira. O chamado “custo Brasil” – conjunto de entraves que encarece a produção – é fortemente influenciado pela logística. Estima-se que o país perde anualmente dezenas de bilhões de reais devido a ineficiências no transporte, entre perdas de carga, atrasos e consumo excessivo de combustível. Esse custo é repassado ao consumidor final e reduz a capacidade de exportação.
Do ponto de vista político, o dado pressiona o governo federal e os estados a priorizarem investimentos em infraestrutura logística. Programas como o Novo PAC e concessões rodoviárias e ferroviárias tentam endereçar o problema, mas a execução enfrenta entraves orçamentários, ambientais e de planejamento. A CNI defende maior integração entre os modais, simplificação de licenças e ampliação do financiamento privado por meio de parcerias público-privadas (PPPs).
A tendência é que o tema ganhe ainda mais relevância nas discussões sobre reforma tributária e política industrial. Sem um sistema de transporte eficiente, medidas de estímulo à produção podem ter efeito limitado. Empresários ouvidos em outras pesquisas apontam que a melhoria da logística poderia aumentar o PIB potencial do país em até dois pontos percentuais ao ano.
**Fontes**
Confederação Nacional da Indústria (CNI) – Sondagem de Infraestrutura (edição mais recente disponível no site oficial da entidade). Dados históricos e análises setoriais também foram consultados para contextualização.
Por Renan Filho · 2026-11-05