Representantes de mais de 20 clubes das séries A e B do Campeonato Brasileiro reuniram-se nesta terça-feira (23) com técnicos do Ministério da Fazenda para expor sua preocupação com o teor do parecer que regulamenta o mercado de apostas esportivas (bets) no Brasil. O documento, em tramitação no Congresso e com aval do Palácio do Planalto, prevê restrições que, segundo os clubes, terão efeito colateral severo sobre a base de torcedores e sobre o já fragilizado fluxo de caixa das agremiações.
O principal ponto de atrito é a proposta de limitar o número de apostas por usuário em eventos de futebol, além de exigir cadastro biométrico obrigatório para acesso a plataformas. Os dirigentes argumentam que tais medidas, embora motivadas por preocupações com endividamento e jogo compulsivo, ignoram a realidade do torcedor brasileiro e a necessidade de formalização de um setor que hoje movimenta bilhões de reais à margem da regulação.
Segundo nota distribuída pela Associação Nacional dos Clubes de Futebol (ANCF), que organizou o encontro, “a restrição excessiva não reduzirá o apetite por apostas, apenas transferirá o fluxo financeiro para sites não autorizados, sem qualquer controle ou arrecadação fiscal”. O texto ainda cita que, em países como Reino Unido e Austrália, onde a regulação foi feita de forma equilibrada, o mercado legal de apostas cresceu com transparência e sem colapso social.
A preocupação não é apenas teórica. Dados apresentados pelos clubes indicam que, atualmente, cerca de 32% dos torcedores que frequentam estádios nas capitais brasileiras declaram já ter feito ao menos uma aposta esportiva online nos últimos 12 meses. Destes, 18% afirmam que deixariam de consumir produtos oficiais dos clubes — como camisas, ingressos e pay-per-view — caso as apostas se tornem excessivamente burocráticas ou inviáveis.
Os números foram obtidos a partir de pesquisa encomendada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ao instituto Datafolha em agosto de 2025 e divulgados pelos clubes na reunião, conforme relato de um dos participantes à Rádio Jovem Pan. “Não se trata de defender a indústria do jogo, mas de entender que o torcedor de 2026 é diferente: ele quer interagir, quer participar da emoção do resultado de forma lúdica. Ignorar isso é afastar a nova geração do estádio”, disse um dirigente que preferiu não se identificar.
Por que isso importa — A discussão vai além do esporte. O futebol brasileiro vive crise financeira estrutural. Dos 40 clubes das séries A e B, 27 registraram déficit operacional em 2025. As receitas com apostas, que hoje respondem por cerca de 8% do faturamento médio dos grandes clubes — seja por patrocínios diretos ou por acordos de compartilhamento com operadoras — são vistas como uma das poucas fontes de receita adicional. Se a restrição secar essa torneira, clubes menores podem enfrentar insolvência e redução de investimentos em categorias de base e infraestrutura.
Análise FORTIS — O governo acerta ao buscar regulamentação para um mercado que até agora operou em zona cinzenta, com riscos reais de lavagem de dinheiro e endividamento de jogadores e torcedores. No entanto, a abordagem proposta peca por excesso de intervenção estatal. A lógica liberal aponta que o caminho correto é regular para formalizar, e não para sufocar. Criar barreiras artificiais ao consumo lícito — como limite de apostas ou biometria obrigatória — não elimina o vício, apenas empurra o problema para o submundo das bets ilegais, que não pagam impostos nem oferecem qualquer proteção ao usuário.
Dados oficiais do Banco Central indicam que os sites ilegais de apostas movimentaram, em 2025, cerca de R$ 24 bilhões no Brasil — montante que poderia gerar, se legalizado e tributado com alíquota justa (entre 12% e 18%), entre R$ 2,8 bilhões e R$ 4,3 bilhões em impostos anuais. Nenhum centavo desse dinheiro entra hoje nos cofres públicos. A restrição proposta pelo governo tende a aumentar esse desvio.
Contraponto — O Ministério da Fazenda defende a medida com base em estudos que apontam que 5,4% dos apostadores brasileiros desenvolvem comportamento compulsivo, índice superior à média global de 3,2%. A pasta também cita o risco de endividamento de jovens de baixa renda, que representam 41% dos usuários de plataformas de apostas. Tais preocupações são legítimas e não devem ser ignoradas. O erro está em tratá-las com instrumentos de controle excessivo, em vez de campanhas educativas, limites de perda proporcionais à renda e mecanismos de autoexclusão voluntária — soluções adotadas com sucesso em mercados maduros como o britânico e o irlandês.
Por Renan Filho · 2026-09-23