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Ciencia

Declaração de Lula sobre Flávio Bolsonaro reacende debate científico: decorar não é aprender

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-23

Ao afirmar que Flávio Bolsonaro 'consegue decorar, mas não consegue aprender', o presidente Lula toca em um conceito fundamental da neurociência cognitiva. Entenda a diferença entre memória de repetição e aprendizado significativo.

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Em uma declaração que rapidamente ecoou nos círculos políticos e acadêmicos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o senador Flávio Bolsonaro “consegue decorar, mas não consegue aprender”. A frase, dita durante evento em Brasília na última semana, não apenas gerou reações políticas, mas também reacendeu o interesse público por um tema caro à neurociência: a diferença entre memorização mecânica e aprendizado profundo. Embora o contexto seja político, a afirmação toca em um campo científico que estuda como o cérebro humano processa, armazena e aplica informações.

**Contexto**

A fala de Lula ocorre em um momento de tensão entre o governo e a oposição. Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, é conhecido por sua atuação em comissões parlamentares e por frequentemente citar dados e normas de memória. No entanto, a crítica de Lula não se limita à arena política; ela se conecta com décadas de pesquisa em psicologia cognitiva e educação.

Na ciência, decorar – ou memorizar por repetição – é um processo que envolve a consolidação de informações na memória de longo prazo por meio da repetição, sem necessariamente compreender o significado ou o contexto. Aprendizado, por outro lado, requer a integração do novo conhecimento com estruturas cognitivas existentes, permitindo que a informação seja aplicada a situações novas. Estudos clássicos, como os de Hermann Ebbinghaus sobre a curva do esquecimento, mostraram que a repetição sem significado leva a uma retenção frágil. Já as teorias de David Ausubel sobre aprendizado significativo destacam que a ancoragem de novos conceitos a ideias prévias é essencial para a compreensão duradoura.

Embora não existam dados exatos sobre a afirmação de Lula, a comunidade científica tem enfatizado cada vez mais a necessidade de metodologias de ensino que priorizem a compreensão sobre a mera decoreba. No Brasil, o debate sobre o modelo educacional também ganha relevância: o país ocupa posições modestas em avaliações internacionais como o PISA, onde a capacidade de aplicar conhecimentos em contextos reais é medida. Especialistas apontam que a ênfase excessiva na memorização em detrimento do pensamento crítico pode estar entre as causas.

**Análise**

A declaração de Lula, embora política, toca em um nervo exposto na relação entre conhecimento e poder. Ao distinguir decorar de aprender, o presidente evoca uma divisão que a neurociência apoia: o cérebro possui sistemas diferentes para a memória procedural (hábitos e habilidades) e a memória declarativa (fatos e eventos). A decoreba ativa principalmente o hipocampo e o córtex pré‑frontal, mas sem a mediação de regiões como o córtex entorrinal, que conecta novas informações a redes semânticas, o aprendizado permanece superficial.

Além disso, estudos de neuroimagem mostram que quando uma pessoa apenas memoriza listas de fatos sem estabelecer conexões, a atividade cerebral se concentra em áreas de repetição, enquanto o aprendizado profundo envolve a ativação de redes distribuídas, incluindo o córtex pré‑frontal dorsolateral, responsável pelo planejamento e pela abstração. Isso implica que, do ponto de vista científico, a crítica de Lula não é apenas retórica: ela descreve um fenômeno real, que pode ser observado em diversos contextos, desde salas de aula até debates parlamentares.

O impacto da declaração, no entanto, vai além da neurociência. Ela coloca em xeque a forma como a sociedade valoriza a memória enciclopédica em detrimento da capacidade analítica. Na política, a habilidade de recitar leis e números pode impressionar, mas sem a compreensão subjacente, o eleitorado fica vulnerável a discursos vazios. Cientistas da educação alertam que sistemas de ensino que privilegiam a memorização para provas produzem profissionais que sabem repetir, mas não inovar. O Brasil, que enfrenta desafios no desenvolvimento do pensamento crítico, pode ver nesse episódio uma oportunidade de refletir sobre suas práticas pedagógicas.

**Fontes**

- Declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante evento em Brasília, outubro de 2026 (registro em veículos de imprensa). - Estudos de Hermann Ebbinghaus (1885) sobre a curva do esquecimento e repetição. - Teoria da Aprendizagem Significativa de David Ausubel (1963, 1968). - Pesquisas de neuroimagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Society for Neuroscience sobre memória declarativa e procedimental. - Relatório do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) 2022, divulgado pela OCDE, sobre desempenho do Brasil em aplicação de conhecimento.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.