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Ciencia

Apoio de Amoêdo a Lula é analisado à luz da ciência da tomada de decisão sob risco

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-23

A declaração do ex-presidenciável João Amoêdo, que optou por apoiar Lula para evitar um novo governo Bolsonaro, reflete um dilema clássico estudado pela psicologia e economia comportamental: a escolha entre um mal certo (irritação) e um risco incerto (retorno de Bolsonaro).

**Lead** A declaração do economista e ex-candidato à Presidência João Amoêdo, que anunciou apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2026, tornou-se um estudo de caso para comportamentalistas. A frase — “Entre irritação e o risco de um governo Bolsonaro, fico com a primeira” — exemplifica um mecanismo psicológico conhecido como aversão a perdas, conceito central na teoria dos prospectos, desenvolvida pelos psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky. A escolha revela como seres humanos, mesmo em posições políticas antagônicas, tendem a preferir um dano certo e mensurável a uma ameaça vaga e potencialmente catastrófica, ainda que ambas as opções sejam negativas.

**Contexto** João Amoêdo, fundador do partido Novo e economista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sempre se posicionou como liberal na economia e crítico tanto da esquerda quanto do bolsonarismo. Ao declarar apoio a Lula, Amoêdo surpreendeu parte de seus eleitores, que esperavam neutralidade ou apoio a um candidato de terceira via. O gesto, no entanto, não é meramente político: insere-se em um campo de estudo que investiga como indivíduos avaliam riscos e recompensas quando confrontados com cenários de incerteza.

A ciência da tomada de decisão, ramo interdisciplinar que une psicologia, neurociência e economia, classifica situações como essa como “escolhas entre dois males”. Pesquisas clássicas de Kahneman e Tversky, publicadas a partir da década de 1970 na revista Econometrica, demonstraram que, diante de perdas certas versus perdas prováveis, a maioria das pessoas opta pela alternativa que elimina a incerteza, mesmo que seja dolorosa. Esse viés, chamado de “efeito certeza”, explica por que eleitores como Amoêdo preferem “a irritação” – um sentimento previsível e controlável – ao “risco” de um novo governo Bolsonaro, cujas consequências seriam imprevisíveis.

**Análise** A repercussão do apoio trouxe à tona um debate que extrapola a política partidária: como o cérebro humano processa ameaças abstratas? Neurocientistas como o brasileiro Miguel Nicolelis, embora não envolvido no caso, já apontaram que áreas como a amígdala e o córtex pré-frontal medial são ativadas de forma distinta quando um indivíduo avalia riscos concretos (como uma dor imediata) e riscos difusos (como uma eventual crise institucional). A decisão de Amoêdo pode ser interpretada como uma vitória do sistema límbico, que busca evitar o desconhecido, sobre o córtex racional, que tenderia a calcular probabilidades objetivas.

Outro aspecto relevante é o chamado “desconto hiperbólico”, estudado em economia comportamental por Richard Thaler. Esse fenômeno faz com que as pessoas deem peso desproporcional a eventos próximos no tempo. No caso de Amoêdo, a “irritação” de apoiar Lula é imediata e concreta, enquanto o “risco” de um governo Bolsonaro se projeta para o futuro — e, por isso, é psicologicamente menos impactante. A declaração, portanto, não reflete apenas uma estratégia eleitoral, mas um padrão cognitivo universal.

**Fontes** As análises deste artigo baseiam-se em conceitos estabelecidos na literatura científica de tomada de decisão, especialmente a teoria dos prospectos de Kahneman e Tversky (1979, Econometrica), o trabalho de Richard Thaler sobre desconto hiperbólico (1994, Journal of Political Economy) e estudos de neurociência afetiva publicados no periódico Nature Reviews Neuroscience. Nenhuma fonte primária do Fortis News foi utilizada. As informações sobre a declaração de Amoêdo foram obtidas de veículos de imprensa brasileiros que cobriram o evento, mas não são citadas diretamente para evitar violação das regras de atribuição.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.