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As complicações decorrentes da má cicatrização de feridas em pessoas com diabetes são um dos problemas mais graves e persistentes enfrentados pelo sistema de saúde brasileiro. Estima-se que uma parcela significativa dos pacientes diabéticos desenvolverá ao longo da vida algum tipo de úlcera, especialmente nos membros inferiores, e, em muitos casos, o processo de reparo tecidual é tão comprometido que leva a infecções recorrentes, hospitalizações prolongadas e, no pior cenário, amputações. A ciência brasileira, atenta a essa realidade, concentra esforços no desenvolvimento de novas terapias, desde o uso de biomateriais até a aplicação de células-tronco, mas o caminho ainda é longo e exige integração entre pesquisa, assistência e políticas públicas.
**Contexto**
O diabetes mellitus, doença crônica que afeta milhões de brasileiros, tem como uma de suas principais consequências a alteração do metabolismo celular e vascular. A hiperglicemia persistente danifica terminações nervosas e compromete a circulação periférica, criando um ambiente desfavorável para a regeneração dos tecidos. Pequenos machucados, bolhas ou cortes podem evoluir para úlceras profundas que não cicatrizam por meses ou anos. Esse quadro é o que os médicos chamam de “pé diabético”, uma síndrome que responde pela maioria das internações por diabetes no Brasil e por um número expressivo de amputações não traumáticas.
Pesquisadores de universidades como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) têm se dedicado a entender os mecanismos moleculares que retardam a cicatrização. Sabe-se que, além da neuropatia e da vasculopatia, o processo inflamatório crônico desregulado impede a transição para a fase de proliferação e remodelamento. A produção excessiva de espécies reativas de oxigênio e a diminuição da atividade de fatores de crescimento são apontadas como barreiras centrais. No entanto, os dados específicos sobre a incidência e os custos dessas feridas variam conforme a fonte, e o Ministério da Saúde brasileiro mantém registros que indicam a gravidade do problema, embora números exatos não sejam divulgados de forma unificada.
A abordagem clínica no Brasil envolve desde o controle metabólico rigoroso – a glicemia deve ser mantida em níveis adequados – até o uso de curativos especiais, como hidrogéis, alginatos e filmes com prata, que ajudam a controlar infecções e a promover um ambiente úmido favorável à cicatrização. Hospitais públicos e privados contam com equipes multidisciplinares, incluindo endocrinologistas, cirurgiões vasculares, enfermeiros estomaterapeutas e nutricionistas. Contudo, o acesso a esses recursos ainda é desigual, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde a infraestrutura de saúde é mais frágil e a oferta de profissionais especializados é menor.
**Análise**
A complexidade da cicatrização em diabéticos vai além do aspecto clínico: ela impõe um imenso fardo emocional, social e econômico. Para o paciente, uma ferida que não fecha significa limitações na mobilidade, dor constante, risco de infecção e, muitas vezes, a necessidade de faltar ao trabalho ou de abandonar atividades cotidianas. O medo da amputação é real e afeta a saúde mental, gerando ansiedade e depressão. Para a ciência, o desafio é duplo: compreender por que o tecido diabético falha em se regenerar e desenvolver intervenções que sejam eficazes, acessíveis e seguras. No Brasil, os grupos de pesquisa têm avançado na criação de biomateriais à base de colágeno, quitosana e polímeros naturais, além de investigar o uso de fatores de crescimento recombinantes e terapia celular.
No campo das terapias inovadoras, ensaios clínicos com células-tronco mesenquimais, derivadas de tecido adiposo ou cordão umbilical, já demonstraram potencial para acelerar a cicatrização em modelos animais e em estudos preliminares com humanos. Ainda assim, a maioria desses tratamentos se encontra em fase experimental ou é de custo elevado, o que limita sua incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS). A ciência brasileira precisa equilibrar a busca por soluções de ponta com a necessidade de tecnologias de baixo custo que possam ser aplicadas em larga escala. Parcerias com a indústria nacional e o fortalecimento da pesquisa translacional – que leva descobertas do laboratório para o leito do paciente – são fundamentais.
Outro ponto crucial é a prevenção. Especialistas reforçam que a educação do paciente diabético sobre cuidados com os pés, calçados adequados e inspeção diária das extremidades pode reduzir drasticamente a incidência de úlceras. O Programa de Educação em Diabetes do SUS, embora existente, enfrenta desafios de adesão e cobertura. Integrar a prevenção à atenção primária e capacitar agentes comunitários de saúde para identificar lesões precoces são estratégias que podem salvar membros e vidas. O Brasil, com sua vasta extensão territorial e desigualdades regionais, precisa de políticas que combinem inovação científica e equidade no acesso ao cuidado.
**Fontes**
Este artigo baseia-se em informações disponíveis em publicações científicas revisadas por pares, relatórios da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), dados epidemiológicos do Ministério da Saúde brasileiro, comunicados de instituições de pesquisa como a USP, UFRJ e Unicamp, e diretrizes clínicas nacionais para o tratamento do pé diabético. Nenhum nome de paciente ou profissional foi citado por questões de verificabilidade.
Por Renan Filho · 2026-10-11