**Lead**
A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, a imprensa estatal da China, incluindo veículos como o Global Times e a agência Xinhua, intensificou a cobertura sobre o pleito, demonstrando uma clara preferência pela vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, mas adotando um tom cauteloso ao tratar de Flávio Bolsonaro, filho do atual presidente e candidato à reeleição. A abordagem reflete a estratégia de Pequim de proteger seus investimentos bilionários no Brasil, independentemente do resultado, evitando críticas diretas que possam comprometer futuras negociações diplomáticas.
**Contexto**
A relação comercial entre China e Brasil atingiu um patamar recorde em 2025, com o intercâmbio bilateral superando a marca de US$ 200 bilhões, impulsionado principalmente pelas exportações de soja, minério de ferro e petróleo. A China é o principal parceiro comercial do Brasil há mais de uma década, e empresas estatais chinesas controlam setores estratégicos da infraestrutura brasileira, como linhas de transmissão de energia e portos. Nesse cenário, a eleição presidencial brasileira é acompanhada de perto por Pequim, que vê no Brasil um aliado fundamental para sua segurança alimentar e energética.
A imprensa chinesa, controlada pelo Partido Comunista, tem historicamente adotado uma postura favorável a Lula, que durante seus dois mandatos (2003-2010) fortaleceu os laços com a China e ingressou no BRICS, bloco que também reúne Rússia, Índia e África do Sul. Em contrapartida, o governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, foi marcado por declarações polêmicas sobre a China, incluindo críticas à vacina CoronaVac e alinhamento com os Estados Unidos, o que gerou atritos diplomáticos. No entanto, a cobertura atual evita ataques frontais a Flávio, que herdou parte do eleitorado do pai, indicando uma preocupação em não antagonizar uma possível administração bolsonarista.
**Análise**
A preferência por Lula na mídia chinesa é evidente em editoriais que destacam a "experiência diplomática" do ex-presidente e sua capacidade de "promover a cooperação Sul-Sul". Artigos recentes do Global Times, um dos principais jornais estatais, elogiaram a política externa de Lula durante seus mandatos anteriores, especialmente sua aproximação com a África e a Ásia, e sugeriram que um novo governo Lula poderia "aprofundar a parceria estratégica" entre os dois países. Essa abordagem é consistente com a visão de Pequim de que Lula é um líder mais previsível e alinhado aos interesses chineses, especialmente em fóruns multilaterais como a ONU e a OMC.
Por outro lado, a cautela ao tratar de Flávio Bolsonaro é uma estratégia calculada. A imprensa chinesa raramente menciona o candidato do PL pelo nome, preferindo referir-se a ele como "o candidato da direita" ou "o herdeiro político do atual presidente". Quando o faz, as críticas são indiretas, focando em políticas do governo Bolsonaro, como o desmatamento na Amazônia, que afetam negativamente a imagem do Brasil no exterior, mas sem associar diretamente Flávio a essas ações. Essa postura evita criar um inimigo declarado, caso Flávio vença, e preserva canais de diálogo com o governo brasileiro, independentemente de quem esteja no poder.
A cobertura também reflete a preocupação chinesa com a estabilidade política e econômica do Brasil. A China teme que um processo eleitoral conturbado, com questionamentos sobre a segurança das urnas eletrônicas, possa levar a uma crise institucional, afetando os fluxos comerciais e os investimentos. Por isso, a mídia estatal chinesa tem enfatizado a importância de uma "transição pacífica de poder" e o respeito ao resultado das urnas, uma mensagem que serve tanto para o público interno quanto para o externo, reforçando a imagem da China como defensora da ordem internacional.
**Fontes**
As informações sobre a cobertura da imprensa chinesa foram obtidas a partir de análises de artigos publicados pelo Global Times e pela agência Xinhua entre os dias 20 e 30 de setembro de 2026, além de relatórios de think tanks especializados em relações China-América Latina, como o Conselho Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) e o China-Brazil Business Council (CBBC). Dados comerciais foram extraídos do Ministério da Economia do Brasil e da Administração Geral de Alfândega da China. Nenhuma entrevista direta foi realizada, e todas as interpretações são baseadas em material público e verificável.
Por Renan Filho · 2026-10-02