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Celebridades perdem espaço para IA e humor nas redes nessas eleições, avaliam especialistas

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-28

O marketing político de 2026 virou a página do estrelismo: algoritmos, memes e inteligência artificial agora ditam o ritmo da campanha digital, enquanto artistas e influenciadores tradicionais veem sua influência diminuir. Para o eleitor, o resultado é um debate mais fragmentado e menos autêntico.

As eleições de 2026 no Brasil estão sendo marcadas por uma mudança silenciosa, mas profunda, no comportamento das redes sociais. Celebridades do entretenimento, que em pleitos anteriores funcionavam como verdadeiros puxadores de votos digitais, perderam espaço para um novo protagonista: a inteligência artificial generativa, combinada ao humor viral e à produção descentralizada de conteúdo. A avaliação é de especialistas em comunicação política e tecnologia, que apontam para uma reconfiguração do ecossistema de influência online, com impactos diretos na forma como os candidatos se comunicam e como os eleitores processam a informação.

O fenômeno não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, a campanha de 2024 já havia demonstrado o poder dos memes e dos deepfakes satíricos, mas é no Brasil que a tendência ganha contornos próprios, impulsionada pela capilaridade do WhatsApp, pelo crescimento do TikTok e pela popularização de ferramentas como ChatGPT, Midjourney e outras plataformas de geração de imagem e vídeo. Dados recentes do Datafolha, divulgados em setembro de 2026, indicam que 68% dos eleitores brasileiros afirmam consumir conteúdo político principalmente por meio de memes e vídeos curtos, enquanto apenas 22% ainda seguem diretamente perfis de celebridades para se informar sobre as eleições. O número representa uma inversão em relação a 2022, quando 54% dos entrevistados citavam artistas e influenciadores como principais fontes de orientação política nas redes.

Para o cientista político Paulo Kramer, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), a queda das celebridades é reflexo de um cansaço do público com o engajamento artificial. “O eleitor brasileiro está mais cínico e mais crítico. A figura do artista que aparece em um palanque virtual, repetindo slogans de campanha, perdeu a credibilidade. Em contrapartida, o humor e a IA oferecem uma camada de distanciamento que permite ao eleitor se engajar sem se comprometer emocionalmente com uma figura pública”, explica Kramer, em entrevista ao portal Congresso em Foco, publicada em 15 de setembro de 2026.

A lógica é simples: enquanto a celebridade tradicionalmente empresta sua imagem e sua autoridade moral a um candidato, a IA e o humor operam na esfera do absurdo e da ironia. Um meme bem-feito, que satiriza um adversário ou exalta uma proposta de forma cômica, tem mais chance de viralizar do que um vídeo de um ator famoso pedindo votos. O resultado é que a campanha deixa de ser um monólogo de celebridades para se tornar um diálogo fragmentado, onde qualquer usuário com uma ferramenta de IA pode criar conteúdo de alta qualidade visual e impacto emocional.

A especialista em marketing digital e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Leticia Camargo, vê com preocupação a ausência de curadoria humana nesse novo cenário. “A IA permite gerar imagens e vídeos em segundos, mas também amplifica a desinformação. Um deepfake de um candidato dizendo algo que nunca disse, produzido com humor, pode ser compartilhado milhares de vezes antes de ser desmentido. A linha entre sátira e fake news é muito tênue, e o eleitor médio não tem ferramentas para distinguir”, alerta Camargo, em artigo publicado na revista Época Negócios, edição de outubro de 2026.

O uso de IA nas campanhas também levanta questões regulatórias. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou, em fevereiro de 2026, resolução que obriga a rotulagem explícita de conteúdos gerados por inteligência artificial em materiais de campanha. No entanto, a fiscalização é praticamente impossível em plataformas como WhatsApp, onde a criptografia de ponta a ponta impede o monitoramento. Especialistas apontam que a medida, embora bem-intencionada, é insuficiente para conter a criatividade dos usuários e a velocidade da disseminação viral.

Do ponto de vista liberal-conservador, a tendência merece uma leitura atenta. O fortalecimento do humor e da IA nas redes não é, em si, um problema. Pelo contrário, pode ser visto como uma manifestação saudável da liberdade de expressão e da criatividade individual, valores caros a uma sociedade aberta. O problema reside na ausência de responsabilidade legal e ética por parte das plataformas digitais, que lucram com o engajamento sem se preocupar com a veracidade do conteúdo. O Estado mínimo, nesse contexto, não significa ausência de regras, mas sim regras claras e limitadas que garantam a propriedade intelectual, a proteção contra difamação e a transparência algorítmica, sem, contudo, transformar a internet em um terreno de censura preventiva.

A campanha de 2026 já mostra exemplos práticos dessa nova dinâmica. O candidato à presidência pelo Partido Liberal (PL), Eduardo Bolsonaro, tem usado ativamente contas de humor e perfis anônimos no X (antigo Twitter) para disseminar memes contra seus adversários, enquanto a campanha do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), aposta em vídeos gerados por IA que o mostram em situações cotidianas, como cozinhando ou jogando futebol, para humanizar sua imagem. Em ambos os casos, a figura da celebridade está ausente. Nenhum grande nome da música ou do cinema brasileiro apareceu em destaque na propaganda eleitoral até agora, um contraste com os anos anteriores, quando artistas como Anitta e Caetano Veloso eram presenças constantes nos materiais de campanha.

A socióloga e pesquisadora do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio), Mariana Valente, argumenta que a queda das celebridades é também uma consequência da polarização extrema. “O eleitor de 2026 não quer mais intermediários. Ele quer participar ativamente da construção do conteúdo político, seja criando memes, seja compartilhando vídeos gerados por IA. A celebridade, nesse cenário, é vista como um elemento hierárquico, que impõe uma opinião de cima para baixo. O humor, por outro lado, é horizontal e democrático, mesmo que muitas vezes seja usado de forma irresponsável”, afirma Valente, em entrevista ao jornal O Globo, publicada em 22 de setembro de 2026.

Outro fator que contribui para a perda de espaço das celebridades é a saturação do mercado de influenciadores. Com milhões de criadores de conteúdo ativos no Brasil, o público se tornou mais seletivo e desconfiado. A monetização excessiva e os escândalos de propaganda enganosa minaram a credibilidade de muitos influenciadores tradicionais, que agora são vistos como meros marqueteiros. Em contrapartida, a IA oferece uma forma de conteúdo sem rosto, sem interesses comerciais aparentes, o que, paradoxalmente, confere maior aura de autenticidade, mesmo quando o conteúdo é fabricado.

A tendência, contudo, não é unânime. Pesquisa do Instituto Reuters, divulgada em agosto de 2026, mostra que 45% dos brasileiros ainda confiam mais em conteúdo produzido por jornalistas profissionais do que em memes ou vídeos gerados por IA. O dado sugere que, apesar do avanço do humor e da tecnologia, a demanda por informação verificada e contextualizada permanece alta. O problema é que esse consumo de qualidade está concentrado em uma parcela pequena e mais escolarizada da população, enquanto a maioria se informa predominantemente por redes sociais, onde o conteúdo viral e superficial domina.

Para o FORTIS NEWS, a análise é clara: a substituição das celebridades por IA e humor nas campanhas digitais é um sintoma da evolução tecnológica, mas também um alerta sobre a qualidade do debate público. Em uma sociedade livre, a criatividade e a sátira política são ferramentas legítimas de participação cidadã. No entanto, quando a IA é usada para criar falsidades com aparência de verdade, e quando o humor serve apenas para reforçar bolhas ideológicas, o resultado é um eleitorado mais fragmentado e menos capaz de tomar decisões racionais. A solução não está em censurar a tecnologia ou em ressuscitar o estrelismo, mas em educar o eleitor para o pensamento crítico e em responsabilizar as plataformas pelos danos que suas ferramentas podem causar.

O futuro das campanhas eleitorais, ao que tudo indica, será cada vez mais digital, automatizado e irônico. As celebridades, que um dia foram os reis das redes, terão que se adaptar a um novo papel: o de coadjuvantes em um palco onde o protagonista é o algoritmo. Cabe ao eleitor, nesse cenário, manter-se vigilante e exigir que a tecnologia seja usada para informar, e não para manipular. A verdade, como sempre, é a única moeda que não perde valor, mesmo na era da inteligência artificial.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.