A Bahia entrou no radar nacional com o avanço das investigações do Caso Master, que já produzem delações, processos e agora respingam na gestão de Jerônimo Rodrigues. Em um ano eleitoral, o caso deixou de ser apenas uma página policial para se transformar em munição pesada contra o governo estadual, com direito a secretário sob pressão e um discurso oposicionista afiado. O que era para ser um escândalo local virou termômetro da disputa política no maior estado do Nordeste.
O núcleo da crise está na delação de um ex-executivo da Master, que apontou suposto pagamento de propinas a agentes públicos baianos para facilitar a liberação de créditos e a participação da empresa em programas estaduais. Conforme o depoimento, os repasses teriam ocorrido entre 2021 e 2024, com a ciência de um alto escalão da Secretaria da Fazenda — cargo ocupado por um aliado próximo de Jerônimo. Em publicação nas redes sociais, o delator afirmou que mantinha encontros periódicos com o secretário, o que foi negado veementemente pela administração estadual em nota oficial.
A revelação veio à tona em meio a um pacote de medidas anticorrupção anunciado pelo governo federal, o que ampliou o constrangimento. Opositores, como o deputado estadual e pré-candidato ao Senado, não perderam tempo: em entrevista à Rádio Metrópole, classificou o caso como ‘a ponta do iceberg’ e pediu o afastamento imediato do secretário. Já o presidente do diretório estadual do PL, em coletiva à imprensa, falou em ‘pauta permanente’ e prometeu levar o tema às ruas durante a campanha.
Para entender a dimensão do problema, é preciso voltar ao contexto. A Master é uma das maiores varejistas de crédito do país, com forte atuação no interior baiano, e já responde a processos por supostas irregularidades em contratos com prefeituras. A delação, no entanto, escancara um esquema que teria beneficiado diretamente a cúpula da Fazenda estadual, com direito a registros em planilhas e mensagens eletrônicas. O Ministério Público Estadual já abriu três frentes de investigação, incluindo uma que mira o enriquecimento ilícito de servidores públicos.
Por que isso importa para o leitor da FORTIS? Porque o caso expõe o custo da intervenção estatal no crédito e na economia. Quando o governo controla linhas de financiamento e incentivos fiscais, cria-se o ambiente perfeito para a captura regulatória — e o contribuinte paga a conta, seja com juros mais altos, seja com a má qualidade dos serviços públicos. A liberdade econômica, defendida por nós, exige transparência e limites claros à ação do Estado. Cada real desviado em propina é um real que deixa de ser investido em infraestrutura, saúde e educação.
Na análise da FORTIS, o episódio reforça a tese de que o capitalismo de compadrio não escolhe partido. Tanto a esquerda quanto a direita, quando assumem o Estado, tendem a usar a máquina pública para favorecer grupos aliados — e a Bahia, sob gestão petista há mais de 16 anos, é um laboratório perfeito desse fenômeno. A delação da Master, se confirmada, não é um caso isolado, mas a ponta de um modelo que precisa ser desmantelado. A saída é menos Estado, menos incentivos discricionários e mais regras claras para todos.
Contudo, é preciso registrar o contraponto. A defesa do governo sustenta que as acusações são infundadas e que o delator tem motivações escusas, como redução de pena em outros processos. Em nota oficial, a Secretaria da Fazenda afirmou que ‘não há qualquer irregularidade’ e que o secretário ‘não manteve encontros com o delator’. A gestão ainda lembra que a delação é um instrumento jurídico que exige corroboração, e que até o momento não há provas materiais apresentadas. Especialistas ouvidos pela imprensa local ponderam que, sem documentos ou áudios, a palavra do delator pode não se sustentar em juízo.
No campo eleitoral, o caso já desenha cenários. Pesquisa recente aponta que 58% dos baianos consideram o governo ‘parcialmente envolvido’ em corrupção, um número que tende a crescer com a exposição midiática. A oposição, que amarga uma desvantagem de 20 pontos na intenção de voto para o governo, vê na crise uma janela de oportunidade. Já o governador Jerônimo Rodrigues, em evento público na última semana, evitou comentar o tema e pediu ‘cautela com factoides’. O silêncio, para analistas, pode ser a estratégia mais perigosa.
Enquanto isso, o secretário segue no cargo, mas com o cargo em risco. A pressão não vem só da oposição: a cúpula nacional do PT, em Brasília, monitora o desenrolar dos fatos e já teria orientado o governo a ‘blindar’ a imagem do partido, que sonha em manter o domínio no estado nas eleições de outubro. Em declaração à imprensa, um ministro do STF, que preferiu não se identificar, afirmou que ‘casos como esse precisam ser tratados com rigor, independentemente de filiação partidária’. A fala, em tom de recado, foi interpretada como um sinal de que a Corte não tolerará manobras protelatórias.
Para o leitor que acompanha a política com olhos de mercado, o caso Master é um estudo de caso sobre como a falta de instituições fortes e a concentração de poder econômico-político geram distorções. A solução, mais uma vez, passa por reformas estruturais: fim do foro privilegiado, transparência total nos contratos públicos e a adoção de mecanismos de compliance nas empresas que negociam com o Estado. Enquanto isso, a população baiana, mais uma vez, assiste a mais um capítulo da novela que mistura poder, dinheiro e promessas não cumpridas.
No fim, o que está em jogo não é apenas a sobrevivência de um secretário ou de um governo — é a credibilidade das instituições que sustentam a democracia liberal. Se os fatos forem provados, que a Justiça atue com dureza. Se não, que a vida siga. Mas uma coisa é certa: a delação da Master já cumpriu seu papel de acender o alerta para os custos da intervenção estatal na economia. E isso, para nós da FORTIS, é a verdadeira notícia.
Por Renan Filho · 2026-09-21