**Lead**
O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) confirmou nesta semana que utilizou o ChatGPT, modelo de linguagem baseado em inteligência artificial (IA) da OpenAI, para redigir uma carta aberta endereçada a seus eleitores e à opinião pública. A revelação, feita durante entrevista a um veículo de comunicação, rapidamente tomou conta das redes sociais e dos noticiários políticos, colocando luz sobre um tema cada vez mais presente no cotidiano de figuras públicas: o uso de ferramentas de IA generativa na produção de textos oficiais e discursos.
**Contexto**
A carta em questão foi divulgada no início do mês, quando Flávio Bolsonaro utilizou suas plataformas digitais para publicar um longo texto abordando a situação política nacional, críticas ao governo federal e defesa de pautas conservadoras. O conteúdo chamou atenção pela estrutura formal e pela ausência de marcas típicas de sua comunicação habitual, o que levou jornalistas e seguidores a especularem sobre a origem do material. Dias depois, em entrevista, o parlamentar foi perguntado diretamente se teria recorrido à inteligência artificial para escrever a carta. Sem rodeios, ele respondeu afirmativamente, explicando que usou o ChatGPT como ferramenta auxiliar “para organizar as ideias e dar mais clareza ao texto”.
Flávio Bolsonaro não é o primeiro político a admitir o uso de IA para comunicação escrita. Em campanhas eleitorais recentes, assessores e candidatos passaram a empregar sistemas generativos para redigir releases, posts em redes sociais e até mesmo propostas de governo. A transparência sobre essa prática, no entanto, ainda gera controvérsia. No caso específico do senador, a admissão provocou reações imediatas. Aliados consideraram o gesto “moderno e transparente”, enquanto opositores criticaram o que chamam de “terceirização da autoria” e “falta de personalização” no contato com o eleitor.
**Análise**
O episódio transcende o âmbito individual e sinaliza uma tendência irreversível: a IA generativa está cada vez mais integrada ao cotidiano dos agentes políticos. A facilidade com que ferramentas como ChatGPT produzem textos coesos e persuasivos atrai políticos de todos os espectros ideológicos, especialmente aqueles com grande demanda por produção de conteúdo digital. Entretanto, o caso levanta questões éticas relevantes. Afinal, até que ponto um texto político deve ser considerado autoral? Se a máquina é coautora, isso deveria ser explicitado? E qual o impacto na confiança do eleitor quando descobre que a mensagem que recebeu não foi escrita pessoalmente pelo candidato?
Especialistas em comunicação política apontam que a transparência parcial — como a demonstrada por Flávio Bolsonaro ao admitir o uso da ferramenta apenas depois de questionado — não é suficiente. Defendem que políticas públicas e códigos de conduta precisam evoluir para exigir a declaração explícita do uso de IA em materiais oficiais, assim como já ocorre em alguns países europeus com relação à publicidade gerada por algoritmos. O receio é que, sem regulamentação, discursos, cartas e propostas passem a ser fabricados em série, diluindo a responsabilidade e a autenticidade que se espera de representantes eleitos.
**Fontes**
A informação foi confirmada pelo próprio senador Flávio Bolsonaro em entrevista concedida a um programa de rádio na última terça-feira. A assessoria de imprensa do parlamentar também emitiu nota esclarecendo que a IA foi usada como ferramenta auxiliar, sem substituir a supervisão e a aprovação final de Flávio. Reportagens dos principais portais de notícias brasileiros repercutiram o caso, destacando as reações de aliados e opositores no Congresso Nacional.
A discussão sobre uso de IA por políticos já vinha sendo analisada por juristas e especialistas em direito digital, sendo citada em artigos acadêmicos e em debates na Câmara dos Deputados sobre o marco regulatório da inteligência artificial no Brasil. O episódio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro deve acelerar o andamento desses debates e pressionar por regras mais claras sobre transparência e autoria em comunicações políticas assistidas por inteligência artificial.
Por Renan Filho · 2026-10-29