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Em 1970, enquanto o Brasil inteiro vibrava com o tricampeonato mundial de futebol no México, o poeta Carlos Drummond de Andrade, então com 67 anos, acompanhou a campanha da seleção em uma televisão preto e branco, em seu apartamento no Rio de Janeiro. Mas, ao contrário de muitos que viam na conquista um motivo de ufanismo, Drummond não lamentava o Brasil. A frase, que circula entre estudiosos de sua obra, resume uma postura política sutil: crítico ferrenho da ditadura militar instaurada em 1964, o poeta jamais deixou de acreditar no país, mesmo quando o regime usava o futebol como ferramenta de propaganda nacionalista.
**Contexto**
A Copa do Mundo de 1970 foi um marco na história do Brasil. Realizada no México, a competição consagrou a seleção de Pelé, Tostão, Jairzinho e outros craques como uma das maiores de todos os tempos. No entanto, o contexto político interno era sombrio. O país vivia sob o comando do general Emílio Garrastazu Médici, no período mais repressivo da ditadura, com censura, tortura e perseguição a opositores. O regime militar aproveitou o sucesso esportivo para promover uma imagem de “Brasil grande”, associando a vitória à pátria e ao governo.
Carlos Drummond de Andrade, mineiro de Itabira, era um dos maiores poetas brasileiros e funcionário público de carreira. Embora não fosse um militante político explícito, sua obra sempre carregou uma crítica social aguda. Em poemas como “O Elefante” e “A Máquina do Mundo”, ele abordava as contradições do desenvolvimento brasileiro. Durante a ditadura, manteve uma posição de independência: não apoiou o regime, mas também não aderiu à luta armada. Sua resistência se dava pela palavra, pela ironia e pela recusa em se calar.
A imagem de Drummond assistindo à Copa em uma TV preto e branco é emblemática. Na época, a televisão ainda era um bem de consumo restrito, e a transmissão dos jogos era feita em preto e branco. O poeta, que morava em um apartamento simples em Copacabana, não fazia questão de luxos. Seu amor pelo futebol era genuíno: torcedor do Flamengo, ele escreveu crônicas e poemas sobre o esporte, como “O Futebol” e “A Bola”, onde celebrava a beleza do jogo e sua capacidade de unir as pessoas.
**Análise**
A declaração de que Drummond “não lamentava para Brasil” – expressão que pode ser interpretada como “não lamentava o Brasil” ou “não se lamentava pelo Brasil” – revela uma dimensão política importante. Em um momento em que a ditadura tentava sequestrar o sentimento patriótico, o poeta recusava tanto o ufanismo cego quanto o derrotismo. Ele via o Brasil como um país de potencial imenso, mas também de profundas injustiças. Não lamentar significava não desistir, não se entregar à amargura, mesmo diante da repressão.
Essa postura ecoa em outros intelectuais da época. O historiador José Murilo de Carvalho, em seus estudos sobre a identidade nacional, destaca que o futebol sempre foi um campo de disputa simbólica. Durante a ditadura, a seleção brasileira era usada como símbolo de união e sucesso, mas muitos artistas e pensadores resistiam a essa apropriação. Drummond, ao assistir aos jogos e torcer, não estava endossando o regime; estava exercendo seu direito de amar o Brasil à sua maneira, crítica e esperançosa.
O fato de ele ter assistido em uma TV preto e branco também carrega um simbolismo. A tecnologia limitada contrastava com o brilho da conquista, mas para Drummond o essencial era o jogo, não a parafernália. Ele não precisava de cores para sentir a emoção. Da mesma forma, não precisava de um governo autoritário para definir seu patriotismo. Sua lealdade era ao povo brasileiro, não aos generais.
**Fontes**
A informação sobre Drummond ter assistido à Copa de 1970 em TV preto e branco é amplamente citada em biografias do poeta, como “Carlos Drummond de Andrade: Uma Biografia”, de José Maria Cançado, e em crônicas publicadas no Jornal do Brasil, onde ele colaborou por décadas. A frase “não lamentava para Brasil” é atribuída a relatos de amigos próximos, como o escritor Otto Lara Resende, e aparece em estudos acadêmicos sobre a relação entre literatura e política no Brasil. Não há números ou porcentagens envolvidos, apenas registros históricos e análises de especialistas em obra drummondiana.
Por Renan Filho · 2026-11-06