**Lead**
O avanço de terapias sistêmicas e minimamente invasivas tem aberto espaço para que parte das pacientes com câncer de mama no Brasil possa tratar a doença sem passar por cirurgias mutiladoras — uma mudança com impacto direto na vida profissional, emocional e financeira de milhares de mulheres. A tendência, apresentada em congressos internacionais de oncologia ao longo dos últimos anos, chega ao país em um momento em que o sistema de saúde busca equilibrar custos, efetividade e qualidade de vida.
**Contexto**
Historicamente, o tratamento do câncer de mama sempre esteve associado à remoção cirúrgica do tumor, muitas vezes com a retirada completa da mama — a mastectomia. Nas últimas duas décadas, porém, a cirurgia conservadora, que remove apenas a lesão e preserva a maior parte do tecido mamário, tornou-se padrão para muitos casos. Mais recentemente, a chamada terapia neoadjuvante — quimioterapia, hormonioterapia ou imunoterapia aplicadas antes da cirurgia — passou a ser usada com frequência para reduzir tumores e até fazer desaparecer completamente o câncer em exames de imagem.
Quando isso acontece, a paciente atinge o que os médicos chamam de resposta patológica completa. Nesses cenários, estudos internacionais indicam que a cirurgia pode ser dispensada em situações muito específicas, sem comprometer as taxas de cura. A abordagem é mais comum em tumores com perfil biológico agressivo, como o chamado triplo negativo e o HER2 positivo, que respondem bem às terapias alvo disponíveis no Brasil.
A discussão ganhou força com protocolos de acompanhamento rigoroso, nos quais a paciente é monitorada com exames de imagem e biópsias durante o tratamento. Se o tumor desaparece completamente, a equipe médica pode optar por manter a mulher em observação ativa, em vez de operar. A estratégia ainda é considerada experimental em muitos centros, mas já faz parte de ensaios clínicos com resultados promissores.
**Análise**
O impacto econômico dessa mudança não é trivial. A cirurgia oncológica envolve custos hospitalares, anestesia, equipe cirúrgica, internação, materiais e afastamento do trabalho. Para o sistema público de saúde, cada mastectomia evitada representa economia direta. Para a paciente, os ganhos são ainda maiores: menores sequelas físicas, menos dor, retorno mais rápido às atividades profissionais e menor impacto na autoestima.
Do ponto de vista do mercado de trabalho, a possibilidade de evitar uma cirurgia extensa pode significar a diferença entre manter ou perder um emprego. Muitas mulheres relatam dificuldades após o diagnóstico — afastamentos prolongados, preconceito e demissões. Reduzir o tempo de tratamento e as limitações pós-operatórias é, portanto, também uma questão de produtividade e de dignidade no ambiente corporativo.
Em um país com diagnóstico ainda tardio em parcela expressiva dos casos, o acesso a essas terapias é desigual. Hospitais privados e institutos de referência já oferecem protocolos modernos, enquanto a rede pública enfrenta filas e limitações de medicamentos. A incorporação de novas tecnologias ao SUS depende de avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS — a Conitec —, que considera evidências científicas, custo-benefício e impacto orçamentário.
A tendência, no entanto, não elimina a cirurgia do mapa. Para a maioria das pacientes, a operação continua sendo etapa essencial. A escolha entre operar ou não depende de uma série de fatores: tipo do tumor, estágio, biologia, resposta ao tratamento, condições de acompanhamento e preferência da paciente. O que se desenha é um cenário mais individualizado, em que a decisão é tomada por um comitê multidisciplinar com base em dados objetivos.
Especialistas ouvidos em eventos científicos defendem que o Brasil avance na padronização de biópsias minimamente invasivas, na ampliação do acesso a testes genéticos e na qualificação de equipes para o acompanhamento de pacientes que optam por não operar. O futuro do tratamento do câncer de mama passa menos pela radicalidade cirúrgica e mais pela precisão de diagnóstico e pela integração de terapias.
**Fontes**
As informações são baseadas em debates apresentados em congressos internacionais de oncologia, como o ASCO Annual Meeting, e em posicionamentos de sociedades médicas, incluindo a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), que discutem a atualização de protocolos para o manejo do câncer de mama. Estudos de referência sobre resposta patológica completa e cirurgia de descalonamento foram publicados em periódicos como o New England Journal of Medicine e o Journal of Clinical Oncology, e servem de base para a discussão científica atual.
Por Renan Filho · 2026-10-13