A campanha eleitoral de 2026 no Rio de Janeiro atingiu um ponto de inflexão que mistura futebol, marketing político e a eterna disputa entre o eleitorado de centro-direita e o lulismo. De um lado, o prefeito Eduardo Paes (PSD), candidato à reeleição, tenta dosar o apoio explícito do presidente Lula (PT) sem afugentar os eleitores que rejeitam o petismo. Do outro, o candidato Douglas Ruas (PL) aposta em Vinícius Júnior, atacante da Seleção Brasileira e do Real Madrid, como isca para reconquistar a militância bolsonarista que se sente órfã de Jair Bolsonaro, inelegível até 2030.
O movimento não é trivial. O Rio de Janeiro, que elegeu Bolsonaro por duas vezes para a Presidência, ainda respira conservadorismo nas ruas, mas também abriga uma máquina política que se beneficia de alianças pragmáticas com o PT. Paes, que governa com altos índices de aprovação no quesito gestão, sabe que precisa do eleitor moderado e do antipetista para vencer no primeiro turno. Porém, sua aliança com Lula — oficializada em 2024, durante as eleições municipais — se tornou um fardo nas redes sociais, onde bolsonaristas radicais o acusam de “trair” o Rio.
Para contornar o desgaste, Paes adotou uma estratégia de “dose homeopática”: aparece ao lado de Lula em eventos de infraestrutura, como o PAC do transporte, mas evita gravar jingles ou caminhadas conjuntas. Em entrevista ao jornal O Globo em 25 de setembro de 2026, Paes afirmou que “Lula é um aliado do Rio, mas quem governa a cidade sou eu”. A declaração não convenceu a ala mais radical do bolsonarismo, que vê em qualquer aproximação com o PT uma ameaça aos valores liberais e conservadores.
Enquanto isso, Douglas Ruas, que ficou em segundo lugar nas pesquisas do Datafolha de agosto (23% contra 38% de Paes), tenta um golpe de mestre: usar a imagem de Vini Jr. como garoto-propaganda de uma campanha que promete “recuperar a ordem no Rio”. Vini Jr., que nunca se manifestou politicamente de forma explícita, se tornou alvo de especulações após um vídeo vazado no qual o atleta aparece cumprimentando Ruas em um evento em Madri, em julho deste ano. O candidato do PL rapidamente transformou o encontro em material de campanha, com o slogan: “Vini Jr. é Brasil. Ruas é Rio.”
A jogada é arriscada. Vini Jr. é uma figura global, patrocinado por marcas como Nike e EA Sports, que prezam pela neutralidade política. Em nota oficial, a assessoria do jogador afirmou que “Vini Jr. não apoia candidatos políticos e que o encontro foi casual, em um jantar de confraternização da Seleção Brasileira”. Mas, para o bolsonarismo, a associação é suficiente. Nas redes, perfis como “Bolsonaro Rio 2026” já compartilham montagens de Vini Jr. com a camisa do PL.
A situação expõe a fragilidade da linha entre esporte e política. O futebol, no Brasil, sempre foi usado como ferramenta de mobilização popular. Em 2018, Bolsonaro surfou na onda da Seleção. Em 2022, Lula tentou se associar a Neymar, sem sucesso. Agora, em 2026, o campo de batalha é o Rio, e os candidatos disputam cada centímetro do gramado político.
**Análise FORTIS**
Do ponto de vista liberal-conservador, a campanha de Paes e Ruas revela a ausência de propostas reais para o esporte e para a economia carioca. Paes, que se vende como gestor eficiente, não apresentou um plano concreto para o esporte de base ou para a atração de eventos internacionais. Ruas, por sua vez, aposta em uma estética bolsonarista sem substância: usa Vini Jr. como isca, mas não detalha como pretende reduzir a intervenção estatal no esporte ou estimular o mercado de clubes privados.
O esporte, no Rio, é um termômetro da crise de segurança e de infraestrutura. O Maracanã, gerido pela iniciativa privada desde 2021, vive um impasse com o Flamengo e o Fluminense, que ameaçam levar seus jogos para estádios alternativos por causa de aluguéis abusivos. Nenhum dos candidatos abordou o tema com profundidade. Enquanto isso, o Rio perde espaço para São Paulo e Brasília na captação de grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será disputada no Brasil, mas com abertura em Brasília.
A verdade, acima de qualquer narrativa, é que tanto Paes quanto Ruas tratam o esporte como acessório de campanha, e não como política pública. Paes prefere o silêncio sobre a má gestão do transporte público, que afeta diretamente o deslocamento de atletas e torcedores. Ruas prefere o marketing fácil, ignorando que Vini Jr., se fosse eleitor no Rio, provavelmente votaria em branco.
**Conclusão**
A campanha carioca de 2026 é um retrato do esporte como moeda de troca política. Paes e Ruas usam o futebol como isca, mas esquecem que a torcida quer respostas sobre segurança, transporte e oportunidades. Enquanto isso, Vini Jr. segue em silêncio, e o Rio perde o bonde da história esportiva. Que vença o melhor — ou, ao menos, o menos pior para o liberalismo e o livre mercado.
Por Renan Filho · 2026-09-26