**Lead**
A campanha eleitoral de 2026 no Brasil caminha para se tornar a menos engajada desde o retorno da democracia, em 1985. A constatação é de analistas políticos, pesquisadores de opinião pública e institutos de pesquisa que monitoram o comportamento do eleitorado. Dados preliminares de estudos sobre participação cívica indicam uma redução drástica no comparecimento a eventos de rua, na audiência de debates televisionados e na interação orgânica em plataformas digitais, um fenômeno que cientistas sociais classificam como 'fadiga democrática' ou 'desencanto sistêmico'.
**Contexto**
Para compreender a magnitude do fenômeno, é necessário recuar ao período imediatamente posterior à redemocratização. Nas eleições de 1989, a primeira disputa direta para a Presidência da República após o regime militar, o país viveu um verdadeiro 'êxtase cívico'. Comícios lotavam praças públicas, a população debatia política nas ruas e o índice de comparecimento às urnas superava a marca dos 80% do eleitorado apto. Esse padrão de alta participação se manteve, com variações, ao longo das décadas de 1990 e 2000, impulsionado por fatores como a estabilização econômica pós-Real e a consolidação das instituições.
No entanto, a partir de 2014, observou-se uma inflexão. As eleições daquele ano, marcadas por intensa polarização, ainda registraram alto engajamento, mas já com sinais de esgotamento do modelo tradicional de campanha. Em 2018 e 2022, o crescimento do uso de redes sociais como palco principal do debate público criou a ilusão de um engajamento elevado, mas estudos recentes mostram que essa participação era, em grande parte, artificial, inflada por robôs e contas automatizadas. O cenário de 2026, contudo, parece ser qualitativamente diferente: não se trata apenas de uma migração de plataforma, mas de um verdadeiro desligamento do eleitor.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação Getulio Vargas (FGV) conduziram, ao longo do primeiro semestre de 2026, um estudo longitudinal sobre o humor do eleitorado. Os resultados, ainda não publicados integralmente, mas já apresentados em congressos acadêmicos, apontam para uma queda acentuada no que os cientistas chamam de 'capital social político' — a disposição do cidadão de se informar, discutir e participar ativamente do processo eleitoral. A pesquisa, que entrevistou milhares de eleitores em todas as regiões do país, identificou que o principal motor desse desengajamento não é a rejeição a um candidato específico, mas uma descrença generalizada na capacidade do sistema político de produzir mudanças reais.
**Análise**
O fenômeno do baixo engajamento não é exclusividade brasileira, mas ganha contornos particularmente preocupantes no país devido ao histórico de instabilidade institucional. Especialistas em ciência política comparada apontam que, em democracias consolidadas, ciclos de apatia são comuns e, muitas vezes, seguidos por ondas de mobilização. No Brasil, entretanto, o contexto é agravado por uma crise de representatividade que se arrasta desde as jornadas de 2013, combinada com a erosão da confiança nas instituições democráticas.
Do ponto de vista da ciência do comportamento, a apatia eleitoral pode ser explicada por um cálculo racional do eleitor: quando os custos de se informar e participar superam os benefícios percebidos, a tendência é o abstencionismo ativo. Em 2026, esse cálculo é influenciado por fatores como a fragmentação partidária, a dificuldade de distinguir propostas entre os principais candidatos e a sensação de que o voto individual não altera a correlação de forças no Congresso Nacional. A ausência de grandes crises econômicas agudas ou de ameaças diretas a direitos fundamentais, paradoxalmente, também contribui para a letargia, já que o eleitor não sente a urgência de se posicionar.
A consequência mais imediata desse desengajamento é o fortalecimento de candidaturas que operam em nichos muito específicos, com baixo apelo popular, mas com alta capacidade de mobilização de suas bases. Isso pode levar a um resultado eleitoral que não reflita a vontade da maioria silenciosa, mas sim a eficiência de máquinas de campanha digital e de estruturas partidárias tradicionais. Para a democracia, o risco é de um mandato com baixa legitimidade popular, alimentando um ciclo vicioso de descrença e apatia.
**Fontes**
As informações deste artigo são baseadas em análises de institutos de pesquisa como Datafolha e Ipec, que monitoram regularmente o interesse do eleitorado; em estudos acadêmicos preliminares do Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira da Universidade de São Paulo (USP) e do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getulio Vargas (FGV); e em artigos de opinião de cientistas políticos como Jairo Nicolau (FGV) e Alberto Carlos Almeida, publicados em veículos de imprensa de grande circulação. As tendências descritas refletem a avaliação consensual entre especialistas que acompanham o processo eleitoral de 2026.
Por Renan Filho · 2026-10-02