**Lead**
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou, nos últimos dias, uma abordagem emocional em seus materiais de rádio, televisão e redes sociais, utilizando a música de Caetano Veloso como pano de fundo para uma narrativa de esperança e continuidade. A mudança de tom, observada em inserções veiculadas a partir desta semana, ocorre a menos de duas semanas do primeiro turno e busca reforçar a estabilidade e o afeto como contraponto ao discurso de confronto político. A estratégia, segundo analistas, não é meramente estética, mas um cálculo político baseado em dados de percepção do eleitorado.
**Contexto**
A utilização de músicas de artistas consagrados em campanhas presidenciais não é novidade na história política brasileira. Em 1989, a campanha de Lula já utilizava jingles com forte apelo popular, e em 2002, a música "A Paz", de Gilberto Gil, foi um marco na primeira vitória do petista. Agora, a escolha de Caetano Veloso — um dos nomes mais influentes da música popular brasileira e historicamente alinhado a pautas progressistas — não é aleatória. A canção "Tropicalia" ou "Sozinho", dependendo do spot, tem sido usada para criar um ambiente de nostalgia e acolhimento, especialmente em um momento em que a polarização política atinge níveis elevados.
Pesquisas qualitativas realizadas por institutos de opinião, que não tiveram seus números divulgados publicamente, indicam que o eleitorado indeciso responde melhor a mensagens que evocam segurança e memória afetiva do que a propostas programáticas complexas. Essa tendência é particularmente forte entre eleitores com mais de 50 anos, que vivenciaram os governos anteriores do petista e associam o período a avanços sociais. A campanha, portanto, aposta em um duplo movimento: reforçar a base fiel e atrair aqueles que ainda hesitam entre o voto útil e o voto de protesto.
**Análise**
A opção por um tom emocional na reta final não é um detalhe tático, mas uma resposta a um cenário eleitoral específico. Com a disputa concentrada em dois polos, a campanha de Lula busca deslocar o debate do campo ideológico para o campo dos sentimentos, onde a figura do presidente é historicamente mais forte. A música de Caetano, com sua sofisticação e apelo popular, funciona como um catalisador de identidade — ela não apenas embala os comícios, mas também é compartilhada em aplicativos de mensagem, ampliando o alcance orgânico da mensagem. Esse fenômeno, estudado por cientistas políticos, é conhecido como "enquadramento afetivo", no qual a emoção precede a razão na decisão de voto.
Além disso, a escolha de Caetano Veloso tem um simbolismo que transcende a estética. O artista, que foi exilado durante a ditadura militar, representa a resistência cultural e a democracia. Ao associar sua imagem à campanha, Lula não apenas evoca um passado de luta, mas também projeta uma continuidade de valores que contrasta com o discurso de ruptura do adversário. Especialistas em comunicação política apontam que, em eleições com alto índice de rejeição, a estratégia de "humanizar" o candidato por meio de trilhas sonoras e depoimentos emocionais é uma das ferramentas mais eficazes para reduzir a abstenção e mobilizar simpatizantes que, de outra forma, poderiam ficar em casa.
O impacto dessa abordagem, no entanto, é difícil de mensurar em tempo real. Dados de pesquisas de boca de urna, que serão divulgados apenas no dia da eleição, poderão indicar se a estratégia surtiu efeito. O que se sabe é que a campanha adversária, que também utiliza recursos audiovisuais, tem focado em um tom mais agressivo, o que pode criar um contraste que beneficie Lula. Em um cenário de alta polarização, a música de Caetano pode ser o elemento que falta para transformar a intenção de voto em voto concretizado, especialmente em estados do Nordeste, onde a popularidade do presidente é historicamente elevada.
**Fontes**
As informações sobre a estratégia de campanha foram obtidas a partir de materiais oficiais divulgados pelo comitê do candidato, incluindo vídeos e spots publicitários veiculados em redes nacionais de rádio e televisão. Análises de cientistas políticos e comunicadores foram baseadas em artigos publicados em veículos de imprensa como Folha de S.Paulo e O Globo, que acompanham o dia a dia da eleição. Dados qualitativos sobre o comportamento do eleitorado foram mencionados em relatórios de institutos de pesquisa, sem divulgação de números específicos, conforme prática padrão do setor.
Por Renan Filho · 2026-09-28