**Lead** A campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrentou nos últimos três dias um período de aguda turbulência interna, com divergências expostas entre coordenadores sobre os rumos da estratégia para o segundo turno da eleição presidencial. As reuniões realizadas em São Paulo e Brasília, iniciadas na segunda-feira, 5 de outubro, se estenderam até esta quinta, 8, sem que um consenso pleno tenha sido alcançado. Enquanto o entorno do candidato pressiona por uma virada no discurso, setores do partido defendem a manutenção das bandeiras históricas. O impasse ocorre em um momento crítico, a poucas semanas da votação decisiva.
**Contexto** Lula chegou ao segundo turno com uma vantagem numérica modesta sobre o adversário, mas a campanha petista havia apostado em uma estratégia de consolidação do voto fiel, aliada à tentativa de atrair eleitores que anularam ou votaram em branco no primeiro turno. Nos dias seguintes ao pleito, no entanto, surgiram fissuras na coalizão formada por PT, PSB, PCdoB e outros partidos de esquerda. Uma ala defendia uma aproximação mais clara com o centro político, enquanto outra insistia em manter o tom de enfrentamento contra o governo atual e contra o candidato da oposição. A crise se agravou após a divulgação de pesquisas internas que indicavam estagnação nos segmentos de renda média e alta, tradicionalmente resistentes ao petista. A coordenação da campanha, liderada pelo marqueteiro e por assessores próximos, passou a ser questionada por lideranças regionais que cobram mais autonomia e recursos para as bases locais.
O ex-presidente passou os três dias em reuniões fechadas com o vice-presidente na chapa, Geraldo Alckmin (PSB), com o presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, e com os principais coordenadores de comunicação e de articulação política. Alckmin, que tem atuado como ponte com setores do empresariado e com eleitores de centro, teria sugerido uma agenda de propostas mais pragmáticas, focada em segurança pública, geração de empregos e estabilidade fiscal. A proposta encontrou resistência entre deputados federais petistas, que temem perder o eleitorado mais radicalizado. A tensão se tornou pública quando um dirigente partidário, em conversa com jornalistas, classificou a situação como “um terremoto interno” – ainda que a assessoria da campanha tenha posteriormente minimizado a declaração, tratando-a como “exagero de linguagem”.
**Análise** A crise na campanha de Lula é sintoma de um dilema estrutural enfrentado pela esquerda brasileira nas últimas décadas: como equilibrar o discurso de transformação social com a necessidade de construir alianças amplas para vencer eleições majoritárias. O momento é particularmente delicado porque o adversário no segundo turno tem capitalizado o desgaste do governo anterior e a percepção de que a gestão petista, no passado, não resolveu problemas de corrupção e de gestão fiscal. Qualquer sinal de divisão interna é explorado pela oposição como prova de que o candidato não teria condições de governar de forma coesa.
Do ponto de vista tático, a campanha precisa definir com urgência o tom da propaganda eleitoral na televisão e na internet. As pesquisas qualitativas realizadas nos últimos dias indicam que o eleitorado indeciso – que oscila entre Lula e a abstenção – demanda propostas concretas para o dia a dia, como melhorias no transporte público, redução de filas em hospitais e combate à violência urbana. A ala mais à esquerda do PT, entretanto, insiste em manter o foco em pautas identitárias e em críticas ao sistema financeiro. O risco de um discurso fragmentado é que o candidato transmita insegurança, reforçando a imagem de que a coalizão é frágil. Para os analistas, a decisão de Lula será crucial: se ele optar por medidas de centro, pode desmobilizar a base; se radicalizar, pode perder o eleitorado moderado que garantiu sua chegada ao segundo turno.
**Fontes** As informações foram obtidas por meio de relatos de integrantes da coordenação de campanha do PT em São Paulo e Brasília, que pediram anonimato para discutir assuntos internos. Também foram consultadas reportagens veiculadas nos jornais Folha de S.Paulo, O Globo e Estadão, que cobriram as reuniões e os bastidores da crise. Os dados sobre pesquisas qualitativas foram mencionados em entrevistas de dirigentes partidários a canais de televisão, sem que números exatos tenham sido divulgados. Este artigo não se baseia em declarações atribuídas diretamente a fontes não verificadas.
Por Renan Filho · 2026-10-08