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Cultura

Cultura digital como ponte: como a campanha de Flávio Bolsonaro mirou o eleitor jovem no Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-21

Em um cenário de desencanto político entre os mais novos, a campanha do senador apostou em linguagem, plataformas e símbolos da cultura jovem para reverter a rejeição histórica à direita tradicional.

**Lead**

Em meio a uma eleição marcada pela polarização e pelo crescente distanciamento dos jovens brasileiros da política institucional, a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) ao Senado adotou uma estratégia centrada na cultura digital para conquistar o eleitorado entre 16 e 29 anos. Diferente do tom mais agressivo e institucional de pleitos anteriores, o novo esforço buscou se infiltrar nas bolhas do TikTok, Instagram e YouTube, utilizando memes, referências a jogos eletrônicos e parcerias com influenciadores de nicho. O objetivo era claro: transformar a imagem do candidato em algo próximo e compreensível para uma geração que consome política em fragmentos de 30 segundos.

**Contexto**

Flávio Bolsonaro, primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro, sempre carregou o peso do sobrenome. Em campanhas passadas, sua comunicação foi predominantemente voltada para o eleitorado conservador mais velho, com foco em pautas como segurança pública e combate à corrupção. No entanto, pesquisas internas indicavam uma baixa penetração entre os jovens, especialmente aqueles que não acompanhavam o noticiário tradicional. Para reverter esse quadro, a equipe de marketing redesenhou a presença digital do candidato.

Foram produzidos conteúdos em formatos nativos das plataformas mais utilizadas pela faixa etária: vídeos curtos com cortes rápidos, legendas dinâmicas e trilhas sonoras de músicas virais. Em vez de discursos formais, o candidato passou a aparecer em situações cotidianas: gravando stories durante um café, reagindo a memes políticos ou comentando partidas de futebol. A ideia era humanizar a figura pública e criar uma percepção de autenticidade. Em algumas ocasiões, a campanha utilizou referências a franquias populares de videogame e a linguagem de grupos de WhatsApp e Discord.

Além disso, houve um esforço para associar o candidato a eventos culturais de grande circulação entre os jovens, como feiras de games, encontros de cosplay e festivais de música eletrônica. A presença nesses espaços não era meramente protocolar: a equipe registrava encontros informais e os transformava em conteúdo para as redes, sempre com edição ágil e sem transparecer artificialidade. A estratégia também incluiu a distribuição de adesivos e brindes com designs inspirados em stickers de aplicativos de mensagens.

**Análise**

A tentativa da campanha de Flávio Bolsonaro de conquistar o jovem revela um movimento mais amplo da política brasileira: a crescente convergência entre engajamento cívico e cultura do entretenimento. Especialistas em comunicação política apontam que, para ser ouvido por esse público, o candidato precisa abandonar o discurso institucional e adotar uma linguagem que dialogue com os códigos visuais e narrativos da internet. Isso não significa, necessariamente, esvaziar o conteúdo, mas sim traduzir ideias complexas para formatos que a geração nativa digital consome de maneira fluida.

A estratégia, contudo, carrega riscos. O excesso de adaptação à cultura jovem pode ser percebido como oportunismo ou caricatura, especialmente quando o candidato não demonstra familiaridade genuína com os símbolos que utiliza. Além disso, a superficialidade inerente aos conteúdos virais pode dificultar a transmissão de propostas políticas consistentes. No caso de Flávio Bolsonaro, que enfrenta um eleitorado cético e bem informado sobre o histórico da família, a aposta na cultura digital funciona como uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo que amplia o alcance, expõe o candidato a um escrutínio mais duro e imediato.

Outro ponto relevante é a influência das plataformas no comportamento político. O algoritmo do TikTok, por exemplo, tende a criar bolhas de conteúdo que reforçam visões de mundo pré-existentes. Nesse sentido, a campanha pode ter contribuído para segmentar ainda mais a juventude, separando aqueles já inclinados ao bolsonarismo dos que rejeitam o espectro político da família. Ainda assim, a iniciativa demonstra que a comunicação política no Brasil está se adaptando a uma realidade em que a atenção é o recurso mais escasso.

**Fontes**

As informações deste artigo baseiam-se em reportagens de veículos como Folha de S.Paulo e UOL, que acompanharam a campanha de Flávio Bolsonaro e analisaram suas estratégias digitais. Também foram consultados estudos do Instituto Datafolha sobre comportamento político juvenil e análises de comunicação política publicadas pelo Grupo de Pesquisa em Mídia e Esfera Pública da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Observações de especialistas em marketing político e cobertura jornalística de eventos culturais de grande porte no Brasil, como a Brasil Game Show, complementam o contexto apresentado.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.