**Lead**
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para as eleições de outubro de 2026 vai apostar em uma nova peça eleitoral que utiliza reportagens de veículos de imprensa — incluindo matérias que relacionam o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a integrantes de milícias no Rio de Janeiro — como principal munição política contra o bolsonarismo. A informação foi confirmada por integrantes do comando de marketing da campanha petista, que preferiram não se identificar, e marca uma mudança de abordagem em relação às eleições anteriores, quando o foco estava em temas econômicos e sociais.
**Contexto**
A relação entre a família Bolsonaro e grupos de milícia no Rio de Janeiro vem sendo investigada por diferentes órgãos há pelo menos cinco anos. Em 2018, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações atípicas na conta de um ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O caso ganhou repercussão nacional e foi paralisado por decisões judiciais, mas voltou à tona em 2023, com a retomada das investigações pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ).
Em 2021, o MP-RJ denunciou o senador por suposto esquema de "rachadinha" — prática de devolver parte dos salários de funcionários públicos — e por lavagem de dinheiro. A denúncia, no entanto, foi suspensa por decisão da Justiça, que apontou vícios formais. O caso ainda tramita em instâncias superiores.
Mais recentemente, reportagens de grandes veículos, como O Globo e a revista Época, trouxeram à tona gravações e depoimentos que indicam que o senador teria mantido contato próximo com milicianos, incluindo o ex-capitão Adriano da Nóbrega, morto em 2020, apontado por investigadores como chefe de uma milícia na zona oeste do Rio. Adriano foi homenageado por Flávio Bolsonaro em uma antiga publicação nas redes sociais, o que gerou forte reação pública.
O caso é frequentemente usado por opositores como evidência de uma relação incômoda entre o bolsonarismo e o crime organizado. Em 2022, durante a campanha presidencial, o então candidato e ex-presidente Jair Bolsonaro negou qualquer envolvimento de sua família com milícias e classificou as acusações como "perseguição política".
**Análise**
A decisão da campanha de Lula de explorar o tema em uma peça eleitoral específica revela uma aposta na memória seletiva do eleitorado. Pesquisas internas, realizadas pelo PT e por institutos parceiros, indicam que a associação entre bolsonarismo e milícia ainda é um dos pontos mais vulneráveis da imagem do ex-presidente e de seus aliados, especialmente entre eleitores de centro e de jovens de 16 a 24 anos, que não acompanham os detalhes jurídicos do caso.
Especialistas em comunicação política apontam que o uso de reportagens jornalísticas como material de campanha é uma prática comum em democracias, mas que exige cuidado para não ultrapassar o limite da desinformação. A estratégia, no entanto, não é nova: em 2022, o PT já havia usado trechos de reportagens em programas eleitorais, mas de forma mais tímida.
A novidade agora é a escala e a centralidade. A peça, segundo aliados, será veiculada no horário eleitoral gratuito de rádio e TV e também em plataformas digitais, com recortes de reportagens e depoimentos de vítimas da violência urbana. A intenção é conectar a segurança pública, um dos temas mais caros ao eleitorado brasileiro, à imagem de tolerância ou até mesmo conivência com grupos paramilitares por parte da direita.
Há, porém, riscos. O principal deles é o efeito de rejeição. A campanha de Bolsonaro — ou de seu eventual substituto — já sinalizou que vai responder com acusações de "lawfare", ou seja, de uso do sistema de Justiça e da imprensa para perseguir adversários políticos. Esse discurso tem ressonância entre parte da população, que vê Lula como um político que também enfrentou processos judiciais e teve suas condenações anuladas.
Outro fator a ser considerado é a reação do próprio Flávio Bolsonaro, que nunca foi condenado em instância definitiva e mantém uma base fiel de apoiadores. A peça pode reforçar a narrativa de que a campanha de Lula está "desesperada" e sem propostas para o futuro, o que, em eleições de cenário polarizado, pode ser mais eficiente que o próprio conteúdo.
A expectativa é que a peça comece a ser exibida já na primeira semana de outubro, logo após o início oficial do horário eleitoral. A campanha petista planeja ainda uma série de lives e posts em redes sociais com jornalistas e analistas que cobrem o caso, na tentativa de dar credibilidade ao material.
**Fontes**
As informações foram obtidas junto a fontes da coordenação de comunicação da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que pediram anonimato, e são baseadas em reportagens publicadas por O Globo e revista Época sobre as investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro relativas a Flávio Bolsonaro e sua ligação com milicianos. A movimentação atípica identificada pelo Coaf foi relatada em notícias veiculadas em 2018. A denúncia do MP-RJ por rachadinha e lavagem de dinheiro foi amplamente noticiada em 2021. As informações sobre a suspensão da denúncia e os vícios formais foram divulgadas pela imprensa especializada em cobertura jurídica.
Por Renan Filho · 2026-10-01