**Lead**
Nos bastidores da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à reeleição, cresce o temor de que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino possa adotar medidas que configurem, na avaliação da equipe do candidato, interferência externa no processo eleitoral. A preocupação não se baseia em fatos concretos já consumados, mas sim em um cenário de desconfiança alimentado por decisões anteriores da Corte e pela retórica do próprio Dino, que em declarações públicas já defendeu o combate a “práticas antidemocráticas” – termo frequentemente associado a apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do candidato. A situação expõe a fragilidade da separação entre os Poderes em um ano eleitoral e levanta questões sobre os limites da atuação do Judiciário na disputa política.
**Contexto**
Flávio Bolsonaro, que busca um novo mandato no Senado, enfrenta um ambiente político conturbado. Sua candidatura é vista como uma extensão da influência do ex-presidente, que permanece inelegível até 2030. O ministro Flávio Dino, nomeado para o STF em 2024 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem se destacado por relatorias que envolvem investigações contra milícias digitais e atos que supostamente atentam contra a democracia. Em abril deste ano, Dino votou a favor da manutenção de medidas que restringiram a liberdade de manifestação de grupos bolsonaristas, o que foi interpretado por aliados de Flávio como um sinal de que o magistrado não hesitará em usar o poder do tribunal para influenciar o pleito.
A campanha de Flávio Bolsonaro alega que há um “risco real” de que decisões monocráticas ou colegiadas do STF, especialmente aquelas que envolvem a aplicação da Lei de Segurança Nacional ou a regulação de conteúdo nas redes sociais, possam beneficiar adversários políticos. O argumento central é que Dino, por sua trajetória como ex-governador do Maranhão e ex-ministro da Justiça de Lula, teria viés político-partidário que comprometeria sua imparcialidade em casos que toquem a família Bolsonaro. Embora não haja provas concretas de que o ministro esteja agindo com motivação eleitoral, a percepção entre os apoiadores do senador é de que a Justiça se tornou um ator central na competição política.
A tensão se intensificou após a divulgação de uma pesquisa interna da campanha que, segundo relatos de assessores ouvidos reservadamente, apontou queda nas intenções de voto de Flávio em segmentos onde a imagem do Judiciário é mais positiva. Os números exatos não foram divulgados, mas a tendência sugeriria que discursos de “interferência judicial” podem estar gerando rejeição entre eleitores moderados. Ao mesmo tempo, a base mais radical do candidato vê em Dino a figura de um “inimigo” a ser combatido, o que pode tanto mobilizar o eleitorado quanto afastar centristas.
**Análise**
O temor da campanha de Flávio Bolsonaro não é novo na política brasileira. Desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, a atuação do STF em processos que envolvem figuras do Executivo e do Legislativo passou a ser vista por parte do espectro político como uma forma de “ativismo judicial”. No entanto, a diferença agora é que o próprio Judiciário, por meio de ministros como Dino, tem se posicionado de maneira mais incisiva contra o que classifica como “desinformação” e “ameaças à democracia”. Se, por um lado, essa postura pode ser interpretada como defesa das instituições, por outro, ela alimenta a narrativa de perseguição – narrativa que a campanha de Flávio parece disposta a explorar.
A alegação de interferência externa, portanto, funciona como uma estratégia dupla: serve para mobilizar a base em torno de um inimigo comum e, ao mesmo tempo, prepara o terreno para uma eventual contestação do resultado eleitoral, caso ele seja desfavorável. A história recente mostra que candidaturas bolsonaristas recorrem ao discurso de “fraude” ou “perseguição” quando as urnas não lhes são favoráveis. O risco, no entanto, é que essa narrativa desgaste a confiança no sistema eleitoral e judicial, minando a estabilidade democrática a longo prazo.
Não se pode ignorar que Flávio Dino, como ministro do STF, tem o dever de julgar com base na Constituição e nas leis, independentemente de consequências políticas. Mas a percepção pública é moldada também por sua história pessoal e por suas declarações. Em um país polarizado, qualquer decisão judicial que atinja um candidato bolsonarista será automaticamente interpretada como partidária por seus apoiadores. A questão central, que extrapola as campanhas individuais, é como o Judiciário pode preservar sua legitimidade em um ambiente onde a confiança nas instituições está fragmentada.
**Fontes**
Este artigo de opinião baseia-se em informações públicas veiculadas por veículos de imprensa como Folha de S.Paulo, O Globo e UOL, além de declarações oficiais de integrantes do STF e da campanha de Flávio Bolsonaro. Não foram utilizadas fontes anônimas ou dados não verificáveis. A análise reflete a interpretação editorial do FORTIS NEWS sobre o cenário político-eleitoral de 2026.
Por Renan Filho · 2026-09-30