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A campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pagou R$ 271 mil a nove pessoas físicas, conforme registro na prestação de contas eleitoral. Entre os beneficiários estão profissionais de baixa renda, como um garçom e um zelador, o que levantou suspeitas de possível utilização de "laranjas" para mascarar gastos de campanha. O caso, revelado por meio de documentos oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ocorreu durante a campanha ao Senado em 2022 e reacendeu o debate sobre transparência no financiamento eleitoral.
**Contexto**
Os pagamentos foram identificados pelo jornal O Globo e fazem parte da prestação de contas da campanha de Flávio Bolsonaro, que disputou uma vaga ao Senado pelo Rio de Janeiro. A soma de R$ 271 mil foi distribuída entre nove pessoas físicas, com valores que variam conforme o registro oficial. Entre os nomes, chamou atenção a presença de um garçom e de um zelador, profissões que não costumam aparecer em gastos eleitorais dessa natureza.
A legislação eleitoral brasileira permite que campanhas contratem pessoas físicas para prestação de serviços, mas exige que os pagamentos sejam compatíveis com a atividade exercida. O problema surge quando há indícios de que os recursos foram repassados a pessoas sem capacidade técnica ou vínculo real com o trabalho declarado. Em vários casos investigados pela Justiça Eleitoral, esse tipo de pagamento a pessoas físicas é usado para diluir doações, ocultar gastos não contabilizados ou mesmo desviar recursos públicos do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha.
A defesa do senador Flávio Bolsonaro afirmou que todos os gastos foram legais e estão devidamente registrados. A campanha teria contratado os profissionais para serviços de divulgação e apoio administrativo, mas não apresentou, até o momento, detalhes sobre a natureza exata do trabalho realizado. O garçom e o zelador, segundo apurações preliminares, não possuem histórico de atuação política ou relação prévia com o grupo político da família Bolsonaro.
Casos semelhantes já foram alvo de investigação no Brasil. Em 2018, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) analisou denúncias de uso de "laranjas" em campanhas no estado, incluindo relatos de pessoas humildes que receberam valores significativos apenas por emprestar o nome. O fenômeno, conhecido popularmente como "laranja eleitoral", é crime previsto no Código Eleitoral e pode levar à cassação do registro da candidatura e à inelegibilidade.
**Análise**
O pagamento a pessoas físicas em campanhas é uma prática comum e permitida, mas o volume e o perfil dos beneficiários acendem um alerta. Quando uma campanha concentra R$ 271 mil em nove pessoas físicas, muitas delas sem qualquer relação pública com a política, a suspeita imediata é de que os valores possam ter sido usados para remunerar serviços fictícios ou intermediar repasses ilegais. A Justiça Eleitoral costuma analisar esses casos com atenção, cruzando dados de contratos, horários de trabalho e capacidade financeira dos envolvidos.
A defesa argumenta que os pagamentos são legais, mas o ônus da prova recai sobre quem contratou. É preciso demonstrar que garçom e zelador efetivamente prestaram serviços relevantes para a campanha, com notas fiscais, recibos e comprovação de entrega do trabalho. Sem isso, o caso tende a se arrastar nos tribunais e a reforçar uma percepção negativa sobre a lisura do processo eleitoral.
O episódio também reacende a discussão sobre o financiamento de campanhas no Brasil. Apesar das regras rígidas e da prestação de contas obrigatória, ainda há brechas que permitem a transferência de recursos para intermediários ou a simulação de despesas. Especialistas em direito eleitoral defendem maior rigor na análise de gastos com pessoas físicas, incluindo a exigência de contratos detalhados e a verificação presencial do vínculo de trabalho.
Para a opinião pública, o caso é mais um capítulo na longa série de controvérsias envolvendo a família Bolsonaro. Flávio já responde a outras investigações, como o caso das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde é acusado de desviar parte dos salários de servidores do seu gabinete. A nova revelação, embora de outra natureza, contribui para manter o senador no centro dos holofotes negativos e pode ter impacto nas eleições municipais de 2024, quando o PL busca consolidar sua base.
**Fontes**
As informações foram relatadas pelo jornal O Globo, com base na prestação de contas registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O caso também foi comentado por perfis de acompanhamento eleitoral no Rio de Janeiro, que compararam os dados oficiais com os nomes e profissões dos beneficiários. Até a publicação desta reportagem, a assessoria do senador Flávio Bolsonaro não respondeu aos pedidos de esclarecimento adicionais sobre a natureza dos serviços prestados pelas nove pessoas físicas.
Por Renan Filho · 2026-10-07