O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), enfrenta o momento mais delicado de sua pré-campanha presidencial. Segundo pesquisas internas do partido e levantamentos de institutos como Quaest e Datafolha, o nome do goiano oscila entre 4% e 7% das intenções de voto no cenário espontâneo — distante de Lula, Bolsonaro e até de nomes como Tarcísio de Freitas e Romeu Zema. O dado, amplamente comentado nos bastidores do União Brasil, levou aliados próximos a aconselharem publicamente que Caiado “desça do palanque nacional e cuide do próprio quintal”, em declaração à imprensa local do deputado estadual Glaustin da Fokus (PSC-GO).
O conselho não é gratuito. Goiás sempre foi o celeiro político de Caiado, eleito com 52% dos votos válidos em 2022 e detentor de uma das gestões mais aprovadas do Centro-Oeste. No entanto, desde que passou a articular a candidatura ao Palácio do Planalto, o governador reduziu a presença em eventos regionais, delegou agendas a vice e secretários, e concentrou esforços em viagens a Brasília e São Paulo. O resultado, apontam analistas, é uma erosão silenciosa de sua base de apoio no Estado. Em publicação nas redes sociais, o ex-prefeito de Anápolis, Roberto Naves, ironizou: “Quem abandona a trincheira para olhar o horizonte acaba perdendo o chão. Goiás não é trampolim, é casa.”
POR QUE ISSO IMPORTA — A encruzilhada de Caiado expõe um dilema clássico do presidencialismo de coalizão brasileiro: a dificuldade de conciliar a gestão de um ente federativo com a ambição nacional. Para a economia e as reformas liberais, a eventual dispersão de capital político de um governador alinhado ao livre mercado pode significar menos força para aprovar pautas como desburocratização, privatizações e ajuste fiscal em Goiás. O Estado, que nos últimos anos se destacou por medidas como a redução do ICMS e a Lei de Liberdade Econômica, corre o risco de estagnar enquanto o governador dedica tempo e recursos a uma campanha presidencial que, até agora, não decolou.
A pressão também é financeira. Conforme nota oficial do Tribunal de Contas do Estado de Goiás, o custo das viagens e da estrutura de pré-campanha de Caiado já ultrapassou R$ 2,3 milhões desde janeiro, bancado por recursos públicos — dinheiro que, segundo críticos, poderia ser investido em infraestrutura e educação. O núcleo liberal do governo, encabeçado pelo secretário de Desenvolvimento, César Moura, já teria alertado, em reunião fechada, que a prioridade deveria ser a conclusão de projetos como o VLT Goiânia e a concessão do Parque Estadual da Serra Dourada. “Não se constrói legado nacional com obra inacabada em casa”, resumiu o secretário, em entrevista à Rádio CBN Goiânia.
ANÁLISE FORTIS — A lógica do mercado político é implacável: um candidato que não consegue demonstrar capacidade de gerir nem mesmo seu próprio Estado dificilmente convencerá o eleitorado nacional de que está preparado para governar o país. Caiado, apesar de ter um histórico de gestão fiscal responsável e de defesa de pautas como o teto de gastos e a independência do Banco Central, cometeu o erro estratégico de subestimar o tempo necessário para consolidar sua imagem fora de Goiás. Enquanto Tarcísio e Zema aproveitam mandatos em Estados-eixo (São Paulo e Minas Gerais) para pavimentar o caminho nacional sem abrir mão da gestão local, Caiado tentou fazer o oposto: virou celebridade em Brasília, mas deixou de ser onipresente nas feiras agropecuárias goianas.
Do ponto de vista liberal, a recomendação a Caiado é óbvia: volte a Goiás, entregue resultados concretos, corte gastos de campanha e reconstrua a base antes de 2026. O Brasil de livre mercado precisa de exemplos de gestão, não de candidatos ansiosos. O governador pode até ganhar tempo se focar em entregas como a reforma administrativa estadual, já em tramitação na Assembleia Legislativa. Se continuar dividido, perderá os dois: o Estado e a chance nacional.
CONTRAPONTO — Há quem defenda que a postura de “presidenciável” é necessária para posicionar Caiado no debate nacional e evitar que Goiás seja ignorado no jogo político. O senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO), aliado de primeira hora, argumentou, em entrevista à Rádio Bandeirantes, que “se o governador não se apresentar, outros ocuparão o espaço liberal. O Brasil precisa de uma voz conservadora e reformista vinda do Centro-Oeste”. O contraponto, porém, não desfaz o fato de que, sem um Estado forte como vitrine, essa voz soa vazia. As pesquisas são claras: o eleitor goiano começa a ver Caiado como um político que “já foi bom governador, mas virou candidato”, nas palavras de um eleitor ouvido pelo instituto Opinião em pesquisa qualitativa divulgada pelo jornal O Popular.
Por Renan Filho · 2026-09-20