Lead: Enquanto organismos internacionais cobram metas ousadas de alfabetização, o Brasil repete o script do fracasso: resultados estagnados no PISA, milhões de jovens incapazes de interpretar um texto simples e candidatos à Presidência escondendo-se atrás de slogans ideológicos. A educação deixou de ser política de Estado para se tornar moeda eleitoral. E quem paga a conta é uma geração inteira.
Contexto: O PISA 2022, divulgado pela OCDE, mostrou que 50% dos estudantes brasileiros de 15 anos estão abaixo do nível 2 em leitura, ou seja, não conseguem identificar a ideia principal de um texto moderadamente longo. Em matemática, o quadro é ainda pior: 73% não alcançam o básico. A média nacional em leitura ficou em 410 pontos, 66 abaixo da média da OCDE, e praticamente não mudou em relação a 2018. O Banco Mundial estima em cerca de 70% a taxa de pobreza de aprendizagem entre crianças brasileiras de 10 anos, termo que descreve quem não consegue ler e compreender uma história simples. Nas últimas edições do PIRLS, o Brasil não participou. Não por coincidência, falar sobre alfabetização virou tabu.
No plano internacional, há um consenso crescente sobre o que funciona. Chile, Uruguai e Costa Rica, apesar das diferenças políticas, avançaram com avaliações externas, currículos explícitos e políticas de apoio aos professores. O Uruguai universalizou o acesso a dispositivos digitais e passou a usar uma plataforma nacional de aprendizagem adaptativa. Singapura e Finlândia, com modelos distintos, tratam a alfabetização como prioridade técnica, com metas claras e autonomia escolar. Nenhum desses países resolveu o problema com disputa de narrativa identitária.
Análise FORTIS: A leitura liberal-conservadora é simples: Estado mínimo não é Estado omisso. A alfabetização é o mais básico dos direitos liberais, pois sem ela não há autonomia, contrato, cidadania ou livre mercado. Uma criança que não lê está condenada à dependência eterna do Estado ou de intermediários. A esquerda tropeça ao transformar a sala de aula em laboratório de dogmas: enquanto discute protagonismo juvenil e educação decolonial, esquece que a criança precisa primeiro dominar o código alfabético. A direita, por sua vez, tropeça por omissão: muitas vezes aceita o discurso de que a escola não é prioridade eleitoral e evita o assunto para não desagradar redes de ensino sindicalizadas. O resultado é que ninguém apresenta um plano factível para alfabetizar na idade certa.
A solução passa por quatro pilares: avaliação censitária, currículo explícito, alfabetização baseada em evidências e gestão autônoma com responsabilização. Não é aceitável que um país com uma das maiores economias do mundo tenha mais de 9,6 milhões de analfabetos absolutos e uma legião de analfabetos funcionais. Tampouco é aceitável que os candidatos escondam seus planos atrás de frases genéricas como educação transformadora ou escola de tempo integral sem explicar como serão financiadas, implementadas e avaliadas.
Por Renan Filho · 2026-09-28