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Politica

Boulos pede licença não remunerada para se dedicar à campanha de Lula; oposição vê 'tapa na cara' do contribuinte

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-25

O deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) protocolou pedido de licença não remunerada do cargo na Câmara para atuar na coordenação política da campanha de Lula à reeleição em 2026. A medida levanta questionamentos sobre o uso do mandato como trampolim eleitoral e expõe o custo da máquina pública para sustentar militantes profissionais.

O deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) oficializou nesta quinta-feira (25) o pedido de licença não remunerada do mandato na Câmara dos Deputados. A justificativa, segundo nota divulgada pela assessoria do parlamentar, é a dedicação integral à coordenação política da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Boulos, que foi candidato à Prefeitura de São Paulo em 2024 e perdeu no segundo turno para Ricardo Nunes (MDB), agora assume um cargo de articulação na campanha presidencial petista. Em publicação nas redes sociais, o deputado afirmou que a decisão foi tomada "para contribuir com a construção de um projeto que tire o Brasil do atraso e da polarização estéril". A licença, segundo o regimento da Câmara, é um direito do parlamentar, que não receberá salário durante o período de afastamento, mas mantém o mandato e todos os direitos políticos.

O gesto, contudo, não é tão altruísta quanto parece. Ao pedir licença não remunerada, Boulos evita o desgaste de acumular salário público com atividades partidárias, mas também escapa de ter que justificar votações e presenças em plenário durante a campanha. Na prática, o deputado seguirá recebendo benefícios como plano de saúde, auxílio-moradia e estrutura de gabinete, ainda que esteja oficialmente "licenciado". A Câmara dos Deputados não informou se os servidores do gabinete de Boulos serão realocados ou permanecerão à disposição do parlamentar.

O contexto revela um padrão incômodo na política brasileira: o uso do cargo eletivo como plataforma de lançamento para campanhas maiores. Boulos foi eleito deputado federal em 2022 com 1,3 milhão de votos, o mais votado de São Paulo, mas passou boa parte do mandato em pré-campanha para a prefeitura paulistana. Agora, mal concluiu o ciclo eleitoral municipal, já embarca em outra campanha. O mandato parlamentar, que deveria ser exercido em favor do eleitor, vira moeda de troca para ambições pessoais e partidárias.

Do ponto de vista fiscal, o episódio é emblemático do quanto o Estado brasileiro gasta mal e entrega pouco. Enquanto Boulos estiver licenciado, o contribuinte paulista que votou nele terá sua representação reduzida a zero. O suplente, o também psolista Antonio Carlos de Oliveira, assumirá a vaga, mas a dinâmica de funcionamento da Câmara garante que o licenciado mantenha o controle político do mandato. Ou seja, o eleitor perde o representante que escolheu, mas paga a conta de toda a estrutura que o mantém.

A oposição reagiu com críticas ácidas. Em nota, a liderança do PL na Câmara afirmou que "Boulos quer viver de militância e não de trabalho. Pedir licença para fazer campanha é um tapa na cara do contribuinte que financia o parlamento". Já o Novo, em publicação no X (antigo Twitter), ironizou: "Licença não remunerada? Na prática, ele continua custeado pelo dinheiro público com gabinete e assessores. Mais um exemplo de que a política virou carreira, não serviço público".

A base governista, por sua vez, defendeu a decisão. O líder do PT na Câmara, deputado Odair Cunha (MG), disse à imprensa que "a licença é legal e demonstra responsabilidade de Boulos, que abre mão do salário para se dedicar à campanha que vai reeleger Lula". A fala ignora, convenientemente, que o parlamentar não abre mão da estrutura do cargo, apenas do vencimento básico.

O movimento de Boulos também expõe uma contradição interna no discurso da esquerda. Enquanto o PSOL e o PT criticam o "Estado mínimo" e defendem a ampliação da máquina pública, seus quadros mais destacados demonstram na prática que o serviço público pode ser deixado de lado quando convém aos interesses partidários. Se a política é uma missão, como Boulos costuma afirmar, por que interrompê-la para fazer mais política? A resposta é simples: porque o mandato não é tratado como trabalho, mas como posição de poder a ser alavancada.

Para o liberal-conservador, o caso é mais um capítulo da crônica do desperdício estatal. O Brasil tributa excessivamente — a carga tributária beira os 34% do PIB — e recebe em troca serviços pífios e uma classe política que trata o cargo público como bem privado. Boulos tem todo o direito de pedir licença. O eleitor tem todo o direito de questionar por que paga por um parlamentar que não exerce o mandato.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.